É uma das queixas que mais confusão causa na consulta: «Disseram-me que tenho olho seco, mas os meus olhos estão sempre a lacrimejar.»

As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. E perceber porquê é o primeiro passo para tratar o olho seco como deve ser — e não apenas pingar gotas e esperar.

A lágrima não é água

A lágrima que cobre o olho é uma película fina com três camadas, cada uma com a sua função:

  • uma camada de muco, colada à córnea, que faz a lágrima aderir à superfície;
  • uma camada aquosa, no meio, que hidrata;
  • uma camada oleosa, por fora, produzida pelas glândulas de Meibómio nas pálpebras, que impede a lágrima de evaporar.

O olho seco não é, na maior parte dos casos, falta de lágrima. É uma lágrima de má qualidade — que não se mantém espalhada sobre o olho o tempo suficiente.

O paradoxo, explicado

Quando a película lacrimal se rompe depressa, a superfície do olho fica exposta e irrita-se. A irritação dispara um reflexo: as glândulas lacrimais produzem uma descarga de lágrima aquosa, de emergência.

Essa lágrima reflexa é quase só água: chega de repente, em excesso, e sem o equilíbrio de óleo e muco que a faria espalhar-se e ficar. Transborda e escorre pela cara em vez de proteger o olho. O olho continua seco — e continua a chorar.

É por isso que o lacrimejo é, muitas vezes, um sinal de olho seco e não o contrário.

Os sintomas

  • sensação de areia ou de corpo estranho;
  • ardor e olhos vermelhos ao fim do dia;
  • visão que oscila e melhora depois de pestanejar;
  • lacrimejo, sobretudo com vento ou ar condicionado;
  • desconforto com lentes de contacto, que antes se toleravam bem.

Quem é mais afectado

O olho seco é muito mais frequente do que se pensa. Em Agosto de 2022, o Dr. André Magalhães Oliveira foi ouvido pela agência EFE e pela imprensa das Canárias sobre o tema, e os números publicados então dão a dimensão do problema: o olho seco afecta metade das pessoas com mais de 40 anos — 60% das mulheres e 40% dos homens. A diferença entre sexos tem uma explicação hormonal, e acentua-se depois da menopausa.

Para além da idade, pesam:

  • ecrãs — a olhar para um ecrã pestaneja-se muito menos, e de forma incompleta. Há um artigo inteiro sobre olhos cansados ao fim do dia de trabalho;
  • lentes de contacto;
  • ar condicionado, vento e ambientes secos;
  • alguns medicamentos, entre eles anti-histamínicos, antidepressivos e alguns anti-hipertensores;
  • doenças autoimunes, como a síndrome de Sjögren ou a artrite reumatóide.

O calor e o Algarve

À agência EFE, o doutor explicou que a subida das temperaturas aumenta as probabilidades de sofrer de olho seco. O mecanismo é directo: com calor e ar seco, a lágrima evapora mais depressa. Acrescente-se o vento, o sol forte e as horas com ar condicionado, e o Verão no Algarve reúne quase todas as condições que agravam a doença.

As notícias originais estão ligadas na página do médico, na secção «Na imprensa».

O que resolve de facto

O tratamento depende do tipo de olho seco — e é por isso que vale a pena saber qual é, em vez de experimentar gotas ao acaso.

Lágrimas artificiais sem conservantes. São a base. Os conservantes de alguns colírios irritam a superfície ocular quando usados várias vezes ao dia — que é exactamente o uso que um olho seco pede.

Higiene das pálpebras e compressas quentes. Quando o problema está nas glândulas de Meibómio — a camada oleosa —, o calor amolece a secreção e a limpeza da margem palpebral desobstrui as glândulas. É, muitas vezes, o tratamento que faz mais diferença e o que menos se faz.

Pestanejar de propósito. Ao ecrã, fazer pausas e pestanejar completamente algumas vezes seguidas.

Ajustar o ambiente. Afastar a saída do ar condicionado da cara, usar óculos de sol com vento, manter-se hidratado.

Quando estas medidas não chegam, há um degrau seguinte: anti-inflamatórios tópicos, em curso curto e vigiado, que quebram o ciclo de inflamação crónica; e tampões que retêm a lágrima na superfície do olho, colocados em consulta e reversíveis.

Porque é que importa antes de qualquer cirurgia

Um olho seco não tratado dá medições instáveis. Antes de uma cirurgia de catarata ou refractiva, os cálculos da lente fazem-se sobre a superfície do olho — e um cálculo feito sobre uma superfície instável não é de confiança. Por isso trata-se primeiro e mede-se depois. É um dos critérios explicados no artigo sobre quem é candidato a operar a presbiopia.

Para saber mais sobre a doença e as suas formas, a página do olho seco detalha o diagnóstico e as opções de tratamento.

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Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação clínica. Marque uma consulta com o Dr. André Magalhães Oliveira e discuta o seu caso concreto, com exames e com tempo.

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A informação deste artigo tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. O diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial.