07 · Problemas de Visão

Pterígio

O pterígio é um crescimento de tecido da conjuntiva que avança sobre a córnea, habitualmente pelo lado do nariz. Os pacientes descrevem-no como «uma carne no olho» — e a descrição é exacta.

É uma patologia de sol, vento e poeira, e por isso mesmo particularmente comum no Algarve e em quem trabalha ao ar livre. Não é um tumor nem tem qualquer relação com cancro, mas não deve ser ignorado: quando avança sobre o eixo visual, altera a curvatura da córnea e degrada a visão de forma que os óculos já não corrigem.

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Uma resposta da conjuntiva à agressão solar

A exposição crónica aos ultravioletas provoca uma alteração degenerativa do tecido conjuntival. Esse tecido espessa, ganha vasos próprios e começa a invadir a córnea, que normalmente é avascular e transparente.

Surge quase sempre do lado nasal, e a explicação é óptica: a luz que entra pelo lado temporal é focada pela própria córnea sobre a região nasal do limbo, concentrando aí a agressão.

Convém distinguir duas entidades próximas:

  • Pinguécula — uma elevação amarelada na conjuntiva, junto à córnea, que não a invade. É mais comum, quase sempre inofensiva e raramente exige cirurgia.
  • Pterígio — invade efectivamente a córnea. É o que pode comprometer a visão.

A pinguécula pode evoluir para pterígio, mas a maioria não evolui.

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Do incómodo estético à perda de visão

Alteração do aspecto do olho

É frequentemente o primeiro motivo de consulta. Uma mancha esbranquiçada ou avermelhada, visível, que incomoda socialmente.

Vermelhidão e irritação

O tecido inflama de forma intermitente, sobretudo com sol, vento e poeira. Alterna períodos calmos com crises.

Sensação de corpo estranho

A superfície deixa de ser lisa e o pestanejo torna-se perceptível, como se houvesse areia.

Astigmatismo induzido

Ao traccionar a córnea, o pterígio deforma-a e cria astigmatismo irregular. A visão baixa e os óculos deixam de corrigir bem.

Olho seco associado

A elevação impede que a lágrima se distribua uniformemente, agravando as queixas de secura.

Invasão do eixo visual

Nos casos avançados o tecido chega à zona central da córnea e tapa parte da pupila. É a situação a evitar.

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A decisão cirúrgica

Nem todo o pterígio se opera. Um pterígio pequeno, estável e assintomático vigia-se — a cirurgia tem uma taxa de recidiva que não se justifica correr sem indicação.

Existe indicação para operar quando:

  • Avança sobre o eixo visual, ou aproxima-se dele de forma progressiva
  • Induz astigmatismo com repercussão mensurável na visão
  • Inflama de forma recorrente, apesar do tratamento tópico
  • Provoca queixas persistentes de irritação ou corpo estranho
  • Limita o uso de lentes de contacto por deformação da superfície
  • Compromete o aspecto de forma que incomoda o paciente — é uma indicação legítima, desde que discutida com clareza

Há ainda um ponto que se aplica a quem vai operar a catarata: um pterígio significativo distorce a biometria e falseia o cálculo da lente intraocular. Nesses casos, opera-se primeiro o pterígio, deixa-se a córnea estabilizar e só depois se calcula a lente.

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Do conservador à cirurgia

Protecção solar

Óculos de sol com protecção ultravioleta certificada e chapéu de aba. É a medida mais eficaz que existe, tanto para travar a progressão como para reduzir a recidiva depois de operar.

Lubrificação e anti-inflamatórios

Lágrimas artificiais para o desconforto diário e, nas crises inflamatórias, um anti-inflamatório tópico em curso curto e vigiado.

Cirurgia com auto-enxerto conjuntival

A técnica de referência. Remove-se o pterígio e cobre-se a área com conjuntiva saudável do próprio paciente, colhida sob a pálpebra superior. Reduz drasticamente a recidiva face à remoção simples.

Recuperação

Cirurgia de ambulatório com anestesia tópica ou local. O olho fica vermelho e desconfortável durante alguns dias. A vermelhidão residual pode demorar algumas semanas a desaparecer por completo.

Vigilância pós-operatória

A recidiva, quando ocorre, aparece nos primeiros doze meses. É o período em que a protecção solar e as consultas de revisão mais contam.

Perguntas frequentes sobre pterígio

O pterígio é um cancro?

Não. É uma alteração degenerativa benigna da conjuntiva, sem qualquer relação com cancro. A confusão é compreensível porque cresce, mas a natureza é completamente diferente. Dito isto, qualquer lesão da superfície do olho com aspecto atípico, crescimento rápido ou pigmentação irregular deve ser observada — precisamente para confirmar que é o que parece.

Se operar, volta a aparecer?

Pode voltar, e é o principal desafio desta cirurgia. Com a remoção simples, sem enxerto, a recidiva é elevada. Com a técnica de auto-enxerto conjuntival, que é a que se usa, o risco desce de forma muito significativa. A protecção solar rigorosa no ano seguinte à cirurgia é a variável que o paciente controla e que mais pesa no resultado.

A cirurgia dói?

Durante o procedimento não — faz-se com anestesia tópica ou local e é indolor. Nos dias seguintes é desconfortável: sensação de corpo estranho, lacrimejo e vermelhidão, que se controlam com a medicação prescrita. É uma cirurgia curta, de ambulatório, e regressa a casa no mesmo dia.

Posso operar só por razões estéticas?

Pode, e é uma indicação legítima — um pterígio visível incomoda muita gente no dia-a-dia. O que exige honestidade é a conversa prévia: a cirurgia tem risco de recidiva e a vermelhidão da área operada pode demorar semanas a resolver. Se a expectativa é um olho perfeitamente branco na semana seguinte, essa expectativa tem de ser corrigida antes e não depois.

Tenho pterígio e catarata. O que se opera primeiro?

Habitualmente o pterígio, se for significativo. A razão é técnica: o pterígio deforma a córnea e falseia a biometria, que é a medição que determina a potência da lente intraocular. Calcular a lente sobre uma córnea distorcida significa implantar a potência errada. Opera-se o pterígio, aguarda-se a estabilização e só então se mede e se opera a catarata.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

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