17 · Problemas de Visão

Queratocone e Ectasias Corneanas

No queratocone a córnea perde rigidez, adelgaça e deforma-se progressivamente num cone. A visão distorce de uma forma que os óculos deixam de conseguir corrigir.

Costuma começar na adolescência e progredir ao longo dos vinte e trinta anos. Durante muito tempo foi uma doença em que só se podia assistir à progressão e reabilitar as consequências. Hoje não é: o crosslinking corneano trava a evolução na grande maioria dos casos, e faz-se com tanto mais benefício quanto mais cedo se detectar. É por isso que este é, sobretudo, um problema de diagnóstico precoce.

01

Uma córnea que perde rigidez

A córnea é a lente externa do olho e responde por cerca de dois terços do seu poder de focagem. A sua transparência e a sua forma dependem de uma malha muito organizada de fibras de colagénio.

No queratocone essas ligações entre fibras enfraquecem. A córnea perde resistência biomecânica e, sob a pressão normal do olho, começa a ceder — adelgaça na zona mais frágil e projecta-se para a frente em forma de cone.

A consequência óptica é um astigmatismo irregular: a superfície deixa de ter dois eixos regulares e passa a ter uma geometria que nenhuma lente de óculos consegue compensar. É a razão pela qual estes pacientes descrevem visão distorcida, imagens fantasma e mudanças frequentes de graduação que nunca resolvem.

Sob a designação de ectasias corneanas incluem-se ainda:

  • Degenerescência marginal pelúcida — adelgaçamento na periferia inferior da córnea
  • Ectasia pós-cirúrgica — a complicação que a selecção rigorosa de candidatos a cirurgia refractiva existe para evitar
02

O que faz suspeitar

Graduação que muda sempre

Mudar de óculos todos os anos, sobretudo com aumento do astigmatismo e alteração do eixo, é o sinal de alarme mais precoce.

Óculos que já não corrigem

A visão nunca fica nítida, mesmo com a melhor graduação. É a marca do astigmatismo irregular.

Imagens fantasma

Ver contornos duplicados ou triplicados com um só olho, e halos marcados à volta das luzes à noite.

Esfregar os olhos com força

O factor de risco modificável mais importante. Frequentemente associado a alergia ocular crónica.

Início na adolescência

É a idade típica de aparecimento. Uma progressão rápida do astigmatismo nesta faixa etária deve ser investigada com topografia.

História familiar

Existe componente genética. Ter um familiar directo com queratocone justifica rastreio com topografia.

03

A topografia é que decide

O queratocone inicial não se vê ao exame comum, e é aí que se perde tempo precioso. O diagnóstico assenta em exames de imagem da córnea:

  • Topografia corneana — mapeia a curvatura da superfície e revela o padrão característico de encurvamento assimétrico. É o exame de rastreio.
  • Tomografia corneana — analisa também a face posterior da córnea e a distribuição da espessura. Detecta formas iniciais que a topografia de superfície ainda não mostra.
  • Paquimetria — quantifica o adelgaçamento e localiza o ponto mais fino.
  • Análise biomecânica — mede directamente a resistência da córnea, em casos duvidosos.

Há um contexto em que este rastreio é obrigatório e não opcional: antes de qualquer cirurgia refractiva. Operar a laser uma córnea com queratocone subclínico desencadeia uma ectasia pós-cirúrgica, que é uma das complicações mais graves desta cirurgia. A selecção rigorosa de candidatos de que se fala na página de cirurgia refractiva refere-se, em boa parte, exactamente a isto.

04

Travar primeiro, reabilitar depois

Deixar de esfregar os olhos

Não é um conselho menor: o traumatismo mecânico repetido é o factor modificável mais associado à progressão. Implica tratar a alergia ocular subjacente, que é quase sempre o que leva a esfregar.

Crosslinking corneano

O tratamento que mudou o prognóstico desta doença. Aplica-se riboflavina e luz ultravioleta, criando novas ligações entre as fibras de colagénio. Devolve rigidez à córnea e trava a progressão na grande maioria dos casos. Não corrige a deformação existente: preserva a que ainda não aconteceu.

Óculos, nas formas iniciais

Enquanto a irregularidade é ligeira, os óculos ainda dão visão aceitável.

Lentes de contacto rígidas

Criam uma superfície óptica regular sobre a córnea deformada. São a reabilitação visual de referência nas formas moderadas, e conseguem visão muito boa.

Anéis intracorneanos

Segmentos implantados na espessura da córnea que regularizam parcialmente a curvatura e melhoram a tolerância às lentes de contacto.

Transplante de córnea

Reservado às formas avançadas com cicatrização central ou intolerância às lentes. Hoje é necessário numa minoria de casos, precisamente porque o crosslinking trava a doença antes de se chegar a este ponto.

Perguntas frequentes sobre queratocone e ectasias corneanas

O queratocone leva à cegueira?

Não. Mesmo nas formas avançadas mantém-se visão, e existe sempre reabilitação possível — lentes de contacto rígidas, anéis intracorneanos ou, em último recurso, transplante de córnea, que tem bons resultados nesta indicação. O que o queratocone provoca é distorção progressiva da visão, não perda total. Com diagnóstico precoce e crosslinking, a esmagadora maioria dos pacientes mantém boa visão funcional ao longo da vida.

O crosslinking melhora a minha visão?

Habitualmente não, e é importante que a expectativa esteja calibrada. O objectivo do crosslinking é travar a progressão, não corrigir a deformação já existente. Alguns pacientes registam alguma regularização e melhoria discreta ao longo dos meses seguintes, mas isso é um efeito adicional, não o propósito. A reabilitação visual faz-se depois, com lentes de contacto ou anéis.

Posso fazer cirurgia refractiva se tenho queratocone?

Cirurgia refractiva a laser convencional, não. É uma contraindicação formal: remover tecido de uma córnea já enfraquecida acelera a ectasia e agrava gravemente o quadro. Existem alternativas para corrigir a graduação nestes olhos — nomeadamente lentes fáquicas ICL, que não tocam na córnea — mas exigem que a doença esteja estabilizada e avaliação individual.

Porque é que me dizem para não esfregar os olhos?

Porque o traumatismo mecânico repetido sobre uma córnea já frágil é o factor de risco modificável mais bem estabelecido na progressão do queratocone. Esfregar com força, muitas vezes por dia, durante anos, exerce pressão suficiente para acelerar a deformação. Quem esfrega fá-lo quase sempre por comichão — daí a importância de tratar a alergia ocular subjacente, que é a verdadeira causa do hábito.

Tenho queratocone. Os meus filhos vão ter?

Existe componente genética, mas não é uma transmissão directa e a maioria dos filhos não desenvolve a doença. Justifica-se, isso sim, rastreio com topografia corneana na adolescência, que é a idade de aparecimento típica. É um exame rápido, indolor e que detecta formas iniciais muito antes de haver qualquer sintoma — precisamente a janela em que o crosslinking preserva mais visão.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

Consulta de avaliação

Tem queratocone e ectasias corneanas? Avalie as suas opções.

Marque uma consulta de avaliação com o Dr. André Magalhães Oliveira e descubra qual o tratamento indicado para o seu caso.

  • Resposta em um dia útil
  • Dr. André Magalhães Oliveira responde ao seu caso
  • Seis unidades no Algarve
Ver cirurgias
Marcar Consulta Três passos, menos de um minuto

ou

Pedir por WhatsApp Abre a conversa com o pedido já escrito

Seja qual for a via, o pedido fica registado e o consultório responde em um dia útil.