Dor verdadeira
A conjuntivite incomoda, não dói. Dor intensa aponta para outra coisa — uveíte, glaucoma agudo ou lesão da córnea.
Conjuntivite é a inflamação da membrana transparente que reveste o branco do olho e o interior das pálpebras. É a causa mais comum de olho vermelho — mas está longe de ser a única.
A palavra descreve um sinal, não uma doença única. Há conjuntivites virais, bacterianas e alérgicas, e o tratamento certo para uma é inútil ou prejudicial noutra. Distingui-las é a parte que interessa da consulta, e é também a razão pela qual o colírio que resultou no ano passado pode não servir agora.
Três conjuntivites diferentes
A distinção faz-se sobretudo pelo tipo de secreção, pela presença de comichão e por afectar um ou os dois olhos.
Há ainda as conjuntivites irritativas, por cloro, fumo, poeira ou produtos químicos, que se resolvem removendo a causa.
A conjuntivite alérgica em detalhe
É especialmente frequente em crianças e adolescentes, e no Algarve tem um padrão sazonal marcado — pólenes na Primavera, gramíneas no início do Verão, ácaros no Inverno.
O que a distingue:
Nas crianças há um ponto que merece atenção dos pais: esfregar os olhos com força e de forma repetida, ao longo de anos, é um factor de risco reconhecido para o queratocone. Controlar a alergia não é só conforto — é prevenção.
Sinais que exigem observação urgente
A conjuntivite incomoda, não dói. Dor intensa aponta para outra coisa — uveíte, glaucoma agudo ou lesão da córnea.
A visão pode ficar enevoada pela secreção e clarear ao pestanejar. Se baixa de forma real, não é conjuntivite.
Incomodar-se com a luz ao ponto de não conseguir abrir o olho sugere envolvimento da córnea ou inflamação intraocular.
Um anel vermelho concentrado à volta da córnea, e não difuso, é sinal de inflamação profunda.
Olho vermelho em portador de lentes obriga a observação no próprio dia: pode ser uma úlcera da córnea.
Uma conjuntivite que não regride no prazo esperado precisa de ser reavaliada, não de mais do mesmo colírio.
Cada tipo, o seu tratamento
Não há antivírico de rotina. Resolve-se sozinha em uma a três semanas. Alivia-se com lágrimas artificiais e compressas frias. O essencial é evitar o contágio: lavar as mãos, não partilhar toalhas, não esfregar o olho.
Colírio antibiótico durante alguns dias, com melhoria habitualmente rápida. Muitas resolveriam sozinhas, mas o antibiótico encurta a evolução e reduz a transmissão.
Colírios anti-histamínicos e estabilizadores dos mastócitos, usados de forma preventiva na época de maior exposição. Lágrimas artificiais frias aliviam a comichão.
Identificar e reduzir a exposição faz mais do que qualquer colírio. Nas crianças, ensinar a não esfregar os olhos é parte do tratamento.
Nunca usar corticóides por iniciativa própria. Numa conjuntivite viral por herpes agravam gravemente o quadro, e o uso prolongado sem vigilância provoca glaucoma e catarata.
Perguntas frequentes sobre conjuntivite
As virais e as bacterianas são; a alérgica e a irritativa não. Na prática, a pista mais útil é a comichão: se o sintoma dominante é comichão nos dois olhos, é quase certamente alérgica e não contagia ninguém. Se o olho está muito vermelho com secreção aquosa e começou depois de uma constipação, é provavelmente viral — e essa contagia com muita facilidade.
Na conjuntivite viral, o período de maior contágio são os primeiros cinco a sete dias, enquanto o olho lacrimeja e está muito vermelho. É o intervalo em que se recomenda evitar contacto próximo, sobretudo em creches e escolas. Na bacteriana, ao fim de 24 a 48 horas de antibiótico o risco é baixo. Na alérgica não há qualquer restrição.
Não, por duas razões. A primeira é que a conjuntivite de agora pode ser de outro tipo, e o colírio errado atrasa a resolução — ou agrava-a, se contiver corticóide. A segunda é que um frasco aberto há semanas está contaminado: aplicá-lo é introduzir bactérias num olho já inflamado.
É o padrão típico, e vale a pena tratá-lo de forma preventiva em vez de reagir a cada crise. Começar o colírio antes da época de maior exposição reduz muito a intensidade dos sintomas. Vale também insistir num ponto: esfregar os olhos com força de forma repetida ao longo dos anos é factor de risco para o queratocone, e nas crianças alérgicas é um hábito a corrigir com atenção.
Na esmagadora maioria dos casos não deixa qualquer sequela. As excepções são as conjuntivites virais mais agressivas, que podem deixar opacidades na córnea durante meses, e as formas alérgicas graves e prolongadas, que exigem vigilância. Uma conjuntivite que não resolve no prazo esperado deve ser reavaliada em consulta.
Referências e leitura complementar
A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.
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