15 · Problemas de Visão

Descolamento de Retina

O descolamento de retina é uma urgência oftalmológica. A retina separa-se da parede do olho, deixa de receber irrigação e as células começam a morrer. Sem cirurgia, a perda de visão é definitiva.

É uma das poucas situações em oftalmologia em que a contagem se faz em horas e dias, não em semanas. O factor que mais determina o resultado final é se a mácula — o centro da visão — já foi atingida no momento da cirurgia. Operar antes disso permite habitualmente preservar boa visão; operar depois recupera o olho, mas raramente devolve o detalhe por inteiro.

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A retina separa-se da parede do olho

A retina não está colada à parede do olho: assenta sobre ela e mantém-se no lugar por bombeamento activo de líquido. Quando se abre uma rotura, o líquido do vítreo passa para trás e vai descolando a retina progressivamente, como papel de parede a soltar-se.

A retina descolada perde o contacto com a camada que a nutre. Sem oxigénio, as células fotorreceptoras começam a degenerar — e essa degeneração é irreversível a partir de determinado tempo.

Há três mecanismos:

  • Regmatogéneo — o mais comum, de longe. Provocado por uma rotura da retina.
  • Traccional — membranas fibrosas puxam a retina. Típico da retinopatia diabética proliferativa avançada.
  • Exsudativo — líquido acumula-se sob a retina por inflamação ou tumor, sem rotura. Trata-se a causa, não se opera a retina.
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Reconhecer a tempo

Cortina ou sombra escura

O sintoma decisivo. Uma área escura que não se move com o olhar e que avança progressivamente pelo campo de visão. Habitualmente começa pela periferia.

Flashes de luz

Precedem frequentemente o descolamento, sinal da tracção que provocou a rotura. Notam-se mais no escuro.

Chuva de moscas volantes

Aumento súbito e numeroso de pontos escuros, que pode indicar rotura de um vaso.

Perda de visão periférica

Deixar de ver de lado, num sector concreto, mantendo a visão central. É a fase em que a cirurgia dá melhores resultados.

Baixa de visão central

Indica que a mácula já foi atingida. A cirurgia continua indicada, mas o prognóstico visual piora.

Ausência de dor

O descolamento não dói. A falta de dor engana e atrasa muitos diagnósticos — não é critério de tranquilidade.

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Porque é que as horas contam

A retina tem uma zona central minúscula, a mácula, responsável por toda a visão de detalhe. O prognóstico divide-se em dois cenários conforme ela esteja ou não descolada no momento da cirurgia:

  • Mácula ainda aplicada — a cirurgia é urgente, habitualmente nas primeiras vinte e quatro a setenta e duas horas. Conseguindo-se operar antes de a mácula descolar, a probabilidade de manter boa visão é elevada.
  • Mácula já descolada — a urgência mantém-se, mas o objectivo muda: reaplicar a retina e recuperar a visão possível. Mesmo com sucesso anatómico completo, a visão central raramente regressa ao que era.

Daqui decorre a mensagem prática desta página: perante uma sombra fixa no campo de visão, não se espera para ver se melhora. Procura-se observação oftalmológica no próprio dia.

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As técnicas cirúrgicas

Vitrectomia

A técnica mais usada actualmente. Remove-se o vítreo, drena-se o líquido acumulado sob a retina, sela-se a rotura com laser e preenche-se o olho com gás ou óleo de silicone para manter a retina aplicada durante a cicatrização.

Posicionamento pós-operatório

Quando se usa gás, é necessário manter a cabeça numa posição definida durante vários dias, para que a bolha pressione a área tratada. É exigente, e é decisivo para o sucesso.

Identação escleral

Coloca-se uma banda de silicone à volta do olho, por fora, que aproxima a parede da retina e alivia a tracção. Usada isoladamente ou combinada com vitrectomia, sobretudo em pacientes mais jovens.

Retinopexia pneumática

Injecta-se uma bolha de gás no vítreo que empurra a retina contra a parede, complementada com laser ou criopexia. Reservada a descolamentos pequenos e de localização favorável.

Recuperação visual

A visão recupera ao longo de semanas a meses e o resultado final depende sobretudo do estado da mácula antes da cirurgia. Com gás, a visão mantém-se muito turva enquanto a bolha não reabsorve, e não se pode voar de avião nesse período.

Perguntas frequentes sobre descolamento de retina

Se vejo uma sombra, posso esperar pela consulta de amanhã?

Não. Uma sombra fixa que avança pelo campo de visão deve ser observada no próprio dia. A razão é concreta: enquanto a mácula não descolar, a probabilidade de preservar boa visão é elevada; depois de descolar, o resultado piora de forma significativa e não é recuperável. Como não é possível prever a que velocidade o descolamento avança, trata-se sempre como urgência.

A cirurgia devolve-me a visão que tinha?

Depende quase inteiramente de um factor: se a mácula estava ou não descolada quando se operou. Com a mácula ainda aplicada, a maioria dos pacientes recupera visão próxima da anterior. Com a mácula já descolada, a retina reaplica-se com elevada taxa de sucesso anatómico, mas a visão central fica habitualmente aquém — com alguma distorção ou perda de detalhe permanentes.

Pode voltar a acontecer?

Pode, em duas frentes. No olho operado existe risco de recidiva, sobretudo nos primeiros meses, e por isso o acompanhamento é apertado. E o outro olho tem risco aumentado face à população em geral, o que justifica examiná-lo e vigiá-lo mesmo estando assintomático — muitas vezes encontram-se aí lesões que se tratam preventivamente a laser.

Porque é que não posso andar de avião depois da cirurgia?

Porque o olho ficou preenchido com uma bolha de gás. Com a redução da pressão atmosférica em altitude, o gás expande e a pressão intraocular sobe a valores perigosos, capazes de comprometer a irrigação do nervo óptico. A restrição mantém-se enquanto houver gás no olho — habitualmente algumas semanas — e é confirmada em consulta antes de qualquer viagem aérea.

Como é que se previne um descolamento de retina?

A prevenção eficaz consiste em tratar as roturas antes de descolarem. Isso implica duas coisas: conhecer os sintomas de alarme — flashes, chuva de moscas volantes, sombra periférica — e procurar observação perante eles; e, nos grupos de risco, sobretudo míopes elevados, fazer exame periódico do fundo ocular com dilatação, que encontra lesões assintomáticas e permite selá-las a laser em consulta.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

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