14 · Problemas de Visão

Roturas e Buracos da Retina

Uma rotura da retina é um rasgão numa membrana com a espessura de uma folha de papel. Selada a tempo com laser, não tem consequências. Deixada a evoluir, deixa passar líquido e descola a retina.

Esta é uma das situações em que a oftalmologia tem uma intervenção simples, rápida e decisiva. Um procedimento de consulta, com anestesia em gotas e alguns minutos de duração, substitui uma cirurgia intraocular complexa com recuperação de semanas. A diferença entre os dois cenários é, quase sempre, o tempo que passou entre o primeiro sintoma e a observação.

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Rasgões, buracos e o que os distingue

A retina é a membrana sensível que reveste o interior do olho e converte a luz em impulsos nervosos. Tem cerca de um quarto de milímetro de espessura e assenta sobre a parede do olho sem estar colada a ela — mantém-se no lugar por pressão e por bombeamento activo de líquido.

Quando se abre uma solução de continuidade, o líquido do vítreo passa para trás e vai levantando a retina. Há duas formas principais:

  • Rotura em ferradura — um rasgão com aba, provocado pela tracção do vítreo ao separar-se. É a mais perigosa, porque a tracção continua a puxar e a alargar o rasgão. Ver descolamento do vítreo posterior.
  • Buraco atrófico — uma perda de tecido por adelgaçamento, sem tracção. Mais frequente em olhos míopes e de risco significativamente menor.

Existe ainda a degenerescência em treliça, uma zona de retina adelgaçada que predispõe a roturas e que se encontra com frequência em míopes. Nem toda exige tratamento — muitas apenas vigilância.

Quando um vaso é atingido pelo rasgão, o sangue entra no vítreo: é a hemorragia vítrea, que se manifesta como uma chuva súbita de pontos escuros ou como uma névoa vermelha que baixa a visão.

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Quem tem maior probabilidade

Miopia elevada

O olho mais comprido tem retina mais distendida e fina. É o factor de risco isolado mais importante.

Descolamento do vítreo em curso

Cerca de uma em cada dez separações do vítreo provoca uma rotura. Daí a observação obrigatória perante sintomas novos.

Cirurgia intraocular prévia

A cirurgia de catarata altera a dinâmica do vítreo e aumenta ligeiramente o risco nos anos seguintes.

Traumatismo ocular

Uma pancada no olho pode provocar rotura imediata ou tardia. Justifica observação mesmo sem sintomas.

História familiar ou no outro olho

Quem teve rotura ou descolamento num olho tem risco aumentado no outro, que deve ser examinado.

Degenerescência em treliça

Zonas de retina adelgaçada, habitualmente periféricas, encontradas em exame de rotina.

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O que o olho avisa

Uma rotura pode ser completamente assintomática — várias são descobertas em exames de rotina, sobretudo os buracos atróficos em míopes. Quando dá sintomas, são estes:

  • Flashes de luz súbitos, sobretudo na periferia e na penumbra, sinal de tracção activa
  • Aumento brusco de moscas volantes, particularmente uma chuva de pontos escuros
  • Névoa avermelhada ou baixa de visão, quando há hemorragia vítrea
  • Sombra periférica fixa, que não acompanha o olhar — já sugere descolamento e é urgência

O ponto essencial repete-se: estes sintomas são indistinguíveis dos de um descolamento do vítreo benigno. Só o exame do fundo ocular com pupila dilatada os separa.

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Selar antes que descole

Fotocoagulação com laser argon

O tratamento de eleição. Aplicam-se pontos de laser em coroa à volta da rotura, criando uma cicatriz que cola a retina à parede do olho e impede a passagem de líquido. Faz-se em consulta, com anestesia tópica, em poucos minutos.

Criopexia

Congelação aplicada por fora do olho, alternativa ao laser quando a rotura é muito periférica ou quando o meio está turvo e não permite focar o laser.

Consolidação da cicatriz

A aderência criada pelo laser leva cerca de duas semanas a atingir resistência plena. Nesse período evitam-se esforços intensos e desportos de impacto.

Vigilância do outro olho

Quem teve rotura num olho tem risco aumentado no outro. Examina-se sempre a periferia dos dois.

Buracos atróficos — muitas vezes só vigilância

Nem toda a lesão encontrada exige laser. Buracos atróficos estáveis e degenerescência em treliça sem tracção acompanham-se, evitando tratar o que não precisa.

Quando já descolou

Se o líquido já levantou a retina, o laser não é suficiente e é necessária cirurgia — ver descolamento de retina.

Perguntas frequentes sobre roturas e buracos da retina

O laser dói?

É desconfortável, mas breve. Aplica-se anestesia em gotas e coloca-se uma lente de contacto sobre o olho para focar o laser. Sentem-se picadas e vê-se uma luz intensa durante os poucos minutos que dura. Alguns pacientes referem uma dor de cabeça ligeira nas horas seguintes. Regressa a casa a seguir, embora deva ir acompanhado por causa da dilatação da pupila.

Depois do laser fico curado?

A rotura tratada fica selada e deixa de representar risco. O que o laser não faz é impedir que surjam novas roturas noutro ponto da retina, sobretudo enquanto a separação do vítreo está em curso. Por isso mantém-se vigilância nos meses seguintes, e por isso qualquer sintoma novo deve ser reavaliado mesmo depois do tratamento.

Quanto tempo tenho para tratar uma rotura?

Uma rotura sintomática com tracção deve ser tratada em dias, não em semanas. A velocidade a que o líquido passa e descola a retina é imprevisível: há roturas que permanecem estáveis durante anos e outras que descolam a retina em quarenta e oito horas. Como não é possível saber antecipadamente qual é qual, trata-se cedo.

Posso fazer exercício depois do laser?

Actividade ligeira, sim, quase de imediato. Esforços intensos, levantamento de pesos e desportos de impacto ou de contacto devem esperar cerca de duas semanas, que é o tempo necessário para a cicatriz do laser atingir resistência plena. As indicações concretas são dadas no fim do procedimento, conforme a localização e a extensão da rotura.

Sou míope. Devo fazer exames à retina periodicamente?

Sim, e é uma recomendação que se justifica sozinha. Na miopia elevada a retina periférica é mais fina e mais susceptível a roturas, e muitas dessas lesões são assintomáticas — encontram-se em exame de rotina e tratam-se antes de darem qualquer problema. Um exame do fundo ocular com dilatação, com a periodicidade indicada em consulta, é a medida preventiva mais eficaz de que dispomos.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

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