O glaucoma tem uma alcunha que se repete em todas as consultas: o ladrão silencioso da visão. Não é um exagero de linguagem. É a descrição mais exacta que existe de como a doença se comporta — e de porque é que, quando alguém dá por ela, uma parte da visão já não volta.

O que é, numa frase

O glaucoma é uma lesão progressiva do nervo óptico, o cabo que leva a imagem do olho ao cérebro. As fibras desse nervo vão morrendo, devagar, e cada fibra que se perde corresponde a um pedaço do campo visual que se apaga.

Na maior parte dos casos, a lesão está associada a uma pressão dentro do olho mais elevada do que aquele nervo consegue suportar. Mas — e é aqui que começam os equívocos — não em todos.

Porque é que é silencioso

Por duas razões que se somam.

Começa pela periferia. O glaucoma apaga primeiro as zonas de fora do campo visual, e só muito mais tarde chega ao centro — que é com o que se lê, se conduz e se reconhecem rostos. Durante anos, a pessoa continua a ler o jornal sem qualquer dificuldade.

O cérebro tapa os buracos. Com dois olhos abertos, o que falta num é compensado pelo outro; e o que falta nos dois é preenchido pelo cérebro com o que está à volta. A falha existe, mas não se vê. Quem tem glaucoma não vê manchas negras: simplesmente não vê o que lá estava — e não sabe que não vê.

Não há dor. Não há olho vermelho. Não há visão turva. No glaucoma de ângulo aberto — mais de nove em cada dez casos — não há sintoma nenhum até a doença estar avançada.

A excepção é o glaucoma agudo de ângulo fechado: dor forte no olho, vermelhidão, visão turva com halos à volta das luzes, por vezes náuseas. É uma urgência, e vai-se ao hospital no próprio dia.

A simulação na página do glaucoma mostra a diferença: arraste para comparar a visão normal com a de um glaucoma avançado.

Os três equívocos que o ajudam a avançar

«Se visse mal, já tinha notado»

É o equívoco mais perigoso, e acabou de ver porquê. Ver bem ao perto e ao longe não diz nada sobre o glaucoma, porque a parte do campo visual que se usa para isso é a última a ser afectada.

«Tenho a tensão do olho normal, logo não tenho glaucoma»

Existe glaucoma de pressão normal: o nervo óptico vai-se perdendo com valores de pressão dentro do intervalo considerado habitual. A pressão é um factor de risco — o principal, e o único que o tratamento consegue modificar — mas não é o diagnóstico.

«Tenho a tensão alta, logo tenho glaucoma»

O contrário também não é verdade. Há pessoas com a pressão acima do habitual e o nervo óptico intacto, durante anos. Chama-se hipertensão ocular, e nem sempre precisa de tratamento: precisa de vigilância. Tratar toda a gente com a pressão alta seria pôr gotas para a vida inteira em quem talvez nunca venha a precisar delas.

Por isso o diagnóstico não se faz com um número. Faz-se olhando para o nervo.

Como se diagnostica

A consulta combina vários exames, porque nenhum deles, sozinho, chega:

  • Tonometria — mede a pressão, interpretada em função da espessura da córnea (paquimetria), que a falseia nos dois sentidos.
  • Observação do nervo óptico — avalia a escavação do nervo e a perda de tecido. É o exame central.
  • OCT — tomografia de coerência óptica, que mede em micras a espessura da camada de fibras nervosas. Detecta perda antes de qualquer sintoma, e antes de o campo visual se alterar.
  • Campos visuais — mapeiam as zonas que já se perderam, e documentam a evolução ao longo do tempo.
  • Gonioscopia — observa o ângulo por onde o líquido do olho drena. Distingue o glaucoma de ângulo aberto do de ângulo fechado, que se tratam de formas diferentes.

Nenhum destes exames dói, e todos se fazem em consulta.

O que o tratamento consegue — e o que não consegue

O tratamento do glaucoma não devolve a visão perdida. O que faz é travar a perda que ainda não aconteceu. Por isso o objectivo não é a cura: é documentar, exame após exame, que a doença deixou de progredir.

Há três degraus, por esta ordem habitual:

  1. Colírios que baixam a pressão. São a primeira linha na maioria dos casos — e é aqui que a maior parte dos tratamentos falha, porque a doença não dá sintomas e a adesão relaxa.
  2. Laser (trabeculoplastia), que melhora a drenagem. Indolor, feito em consulta, e cada vez mais usado como primeira opção em alternativa aos colírios.
  3. Cirurgia, quando a pressão não se controla de outra forma: cria-se uma via alternativa para o líquido sair.

Quem deve fazer rastreio

O rastreio é a única forma de chegar ao glaucoma antes de ele chegar à visão. Vale a pena, sobretudo, para quem tem:

  • mais de 40 anos — a frequência sobe de forma marcada a partir daí;
  • um familiar directo com glaucoma — pais ou irmãos;
  • miopia elevada, que torna o nervo óptico mais vulnerável;
  • diabetes ou doença vascular;
  • uso prolongado de corticóides, em colírio, inalador ou comprimido.

A periodicidade decide-a o oftalmologista, em função do risco de cada pessoa. Para quem tem algum destes factores, a primeira avaliação não deve esperar por um sintoma — porque, neste caso, o sintoma é o atraso.

Se quer saber o que acontece numa avaliação completa, há um artigo sobre a primeira consulta de oftalmologia.

Tem dúvidas sobre o seu caso?

Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação clínica. Marque uma consulta com o Dr. André Magalhães Oliveira e discuta o seu caso concreto, com exames e com tempo.

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A informação deste artigo tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. O diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial.