Chega a Primavera e repete-se o mesmo quadro: olhos vermelhos, pálpebras inchadas, lacrimejo, e uma criança que esfrega os olhos dezenas de vezes por dia. Os pais reconhecem o padrão, muitas vezes já usam um colírio que sobrou do ano anterior, e a coisa lá vai passando.

Vale a pena parar neste ponto, por duas razões. A primeira é que a conjuntivite alérgica se trata muito melhor de forma preventiva do que reactiva. A segunda é menos conhecida e mais importante: o hábito de esfregar os olhos com força, repetido ao longo de anos, não é inofensivo.

Como se reconhece

A conjuntivite alérgica distingue-se das outras conjuntivites por um sintoma que domina todos os restantes: a comichão.

  • Comichão intensa — o sinal decisivo. Sem comichão, é pouco provável que seja alérgica
  • Sempre nos dois olhos, ao contrário da maioria das infecciosas
  • Secreção clara e aquosa, nunca amarelada ou espessa
  • Pálpebras inchadas e conjuntiva com aspecto gelatinoso
  • Não é contagiosa — não há motivo para faltar à escola
  • Frequentemente acompanhada de rinite — espirros, nariz a pingar, comichão no palato

No Algarve o padrão é marcadamente sazonal: pólenes na Primavera, gramíneas no início do Verão, ácaros nos meses de Inverno em casas fechadas.

Porque é que esfregar merece atenção

Esfregar os olhos alivia a comichão durante alguns segundos e agrava-a a seguir: a fricção liberta mais histamina, que produz mais comichão, que leva a esfregar outra vez. É um ciclo que se auto-alimenta.

Mas há uma consequência de outra ordem, que se instala ao longo de anos e que raramente se explica aos pais. O traumatismo mecânico repetido sobre a córnea é um factor de risco reconhecido para o queratocone — uma condição em que a córnea perde rigidez, adelgaça e se deforma progressivamente, degradando a visão de uma forma que os óculos deixam de conseguir corrigir.

O queratocone costuma manifestar-se na adolescência, precisamente na sequência de anos de alergia ocular mal controlada. Não é uma consequência inevitável, e a maioria das crianças alérgicas nunca o desenvolve. Mas é um risco evitável, e a forma de o evitar é simples: controlar a alergia bem o suficiente para que a criança deixe de precisar de esfregar.

O que fazer

Tratar de forma preventiva, não reactiva. É a mudança de abordagem que mais resultado dá. Começar o colírio anti-histamínico antes da época de maior exposição, em vez de reagir quando a crise já está instalada, reduz muito a intensidade dos sintomas ao longo de toda a estação.

Compressas frias. Aliviam a comichão de forma imediata e segura, e dão à criança uma alternativa ao esfregar. Uma compressa fria sobre os olhos fechados durante alguns minutos funciona notavelmente bem.

Lágrimas artificiais frias. Guardadas no frigorífico, diluem e removem o alergénio da superfície do olho e acrescentam o efeito do frio. Sem conservantes, se o uso for frequente.

Reduzir a exposição. Lavar o rosto e as mãos ao chegar da rua, mudar de roupa, lavar o cabelo antes de deitar nos dias de maior concentração de pólen, manter as janelas fechadas nas horas de pico e evitar estender roupa no exterior nesses dias.

Ensinar a não esfregar. Parece o conselho mais banal desta lista e é o mais importante. Explicar à criança porquê, dar-lhe a alternativa da compressa fria, e tratar a comichão o suficiente para que a tentação diminua.

O que não fazer

Não usar colírios com corticóide por iniciativa própria. É a advertência mais séria deste artigo. Os corticóides tópicos são eficazes na alergia ocular, mas o uso prolongado sem vigilância provoca aumento da pressão intraocular — e glaucoma — e catarata, mesmo em crianças. São medicamentos que se usam sob indicação, em cursos curtos e com controlo da pressão.

Não reutilizar um frasco aberto do ano passado. Um colírio aberto há meses está contaminado, e o que se aplica é isso.

Não assumir que é sempre alergia. Um olho vermelho com dor verdadeira, com fotofobia intensa, ou com baixa de visão, não é conjuntivite alérgica e deve ser observado.

Quando consultar

Vale a pena avaliação oftalmológica se os episódios se repetem todos os anos, se a criança esfrega os olhos de forma constante apesar do tratamento, se há queixas fora da época esperada, ou se em algum momento houver baixa de visão.

A consulta permite confirmar o diagnóstico, definir um plano preventivo para a estação seguinte e — em crianças com anos de alergia e esfregar persistente — fazer uma topografia corneana, que é o exame que detecta um queratocone inicial muito antes de haver qualquer sintoma. É nessa fase precoce que ele se trava melhor.

Tem dúvidas sobre o seu caso?

Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação clínica. Marque uma consulta com o Dr. André Magalhães Oliveira e discuta o seu caso concreto, com exames e com tempo.

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A informação deste artigo tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. O diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial.