Chuva de pontos pretos
Dezenas ou centenas de pontos de uma só vez, em vez de dois ou três. Sugere sangue no vítreo por rotura de um vaso.
Aparecem de repente pontos escuros, fios ou teias que flutuam com o movimento do olhar, por vezes acompanhados de flashes de luz. Na grande maioria dos casos é benigno — mas é preciso confirmá-lo.
O descolamento do vítreo posterior é um acontecimento normal do envelhecimento do olho, e a causa mais comum de moscas volantes de início súbito. O problema é que os seus sintomas são exactamente os mesmos de uma rotura da retina, que é uma situação urgente. Distingui-los não se faz pela descrição: faz-se observando a periferia da retina com a pupila dilatada.
O gel do olho separa-se da retina
O interior do olho está preenchido por um gel transparente, o vítreo, que na juventude adere à retina. Com a idade esse gel liquefaz-se, contrai e acaba por se separar da retina — é o descolamento do vítreo posterior, e acontece à maioria das pessoas a partir dos cinquenta e poucos anos.
Os sintomas explicam-se por essa separação:
Na maioria dos casos a separação faz-se de forma limpa. Em cerca de uma em cada dez situações, porém, o vítreo está mais aderente nalgum ponto e ao separar-se rasga a retina. Essa rotura permite que o líquido passe para trás e descole a retina — e aí a situação muda de natureza.
Os sinais que exigem observação urgente
Dezenas ou centenas de pontos de uma só vez, em vez de dois ou três. Sugere sangue no vítreo por rotura de um vaso.
Flashes que aumentam em frequência ou intensidade indicam tracção activa sobre a retina.
Uma área escura que não se move com o olhar e que avança pelo campo de visão. É descolamento de retina até prova em contrário — urgência absoluta.
Deixar de ver de lado, num sector do campo visual, com a visão central ainda preservada.
Quando o descolamento atinge a mácula, o prognóstico piora significativamente. É a razão da urgência.
Nestes olhos o risco de rotura é maior e o limiar para observar deve ser mais baixo.
O exame que resolve a dúvida
Não é possível distinguir clinicamente, pela descrição dos sintomas, um descolamento do vítreo simples de uma rotura da retina. Os dois dão exactamente as mesmas queixas. Por isso o exame é obrigatório:
Quando o exame inicial é normal, mantém-se vigilância nas semanas seguintes: uma rotura pode surgir mais tarde, à medida que a separação do vítreo progride. Se os sintomas mudarem ou se agravarem nesse período, volta-se a observar sem esperar pela consulta marcada.
O que se faz e o que não é preciso fazer
Não exige tratamento. As moscas volantes tornam-se menos perceptíveis ao longo de meses, em parte porque assentam e em parte porque o cérebro deixa de lhes prestar atenção. Mantém-se vigilância e conhecimento dos sinais de alarme.
Quando existe rotura sem descolamento, aplica-se laser em torno dela. As queimaduras criam uma cicatriz que sela a rotura e impede a passagem de líquido. É feito em consulta, com anestesia tópica, e evita a cirurgia.
Alternativa ao laser em roturas de localização muito periférica, selando por congelação.
Quando a retina já descolou, o laser não chega e é necessária cirurgia. Ver descolamento de retina.
Existe, mas é reservada a casos excepcionais em que as opacidades são muito incapacitantes e persistentes. É uma cirurgia intraocular com riscos próprios, e não se justifica para moscas volantes toleráveis.
Perguntas frequentes sobre descolamento do vítreo posterior
Raramente desaparecem por completo, mas tornam-se muito menos incomodativas ao longo de meses. Parte das opacidades assenta por gravidade e sai do eixo visual, e o cérebro aprende a ignorar as restantes — um fenómeno real chamado neuroadaptação. A maioria dos pacientes que ao início se queixa muito deixa de lhes prestar atenção ao fim de seis a doze meses.
Moscas volantes antigas e estáveis são habitualmente benignas e não exigem urgência. O que importa vigiar é a mudança: um aumento súbito do número, o aparecimento de flashes novos, ou uma sombra fixa no campo de visão. Qualquer um destes é motivo para observação com dilatação da pupila, mesmo em quem já convive com moscas volantes há muito tempo.
Porque o olho míope é mais comprido, e a retina que o reveste está mais distendida e é mais fina, sobretudo na periferia. Isso torna-a mais susceptível a roturas quando o vítreo se separa. Além disso, nos míopes o descolamento do vítreo tende a ocorrer mais cedo. Por essa razão o limiar para observar deve ser mais baixo — ver retinopatia miópica.
É relativamente frequente. A cirurgia de catarata altera a dinâmica do vítreo e pode precipitar a sua separação nos meses seguintes. Isso não significa que a cirurgia tenha corrido mal. Significa, sim, que os sintomas novos devem ser observados com dilatação, porque nos olhos operados o risco de rotura é ligeiramente superior.
Não. Os flashes por tracção da retina são breves, surgem na periferia e notam-se mais no escuro. Distinguem-se de outro fenómeno comum: a aura da enxaqueca, que dura vinte a trinta minutos, aparece nos dois olhos e tem tipicamente um padrão em ziguezague colorido, seguido ou não de dor de cabeça. A diferença é relevante, mas na dúvida observa-se.
Referências e leitura complementar
A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.
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