18 · Problemas de Visão

Uveíte

A uveíte é a inflamação da úvea, a camada vascular no interior do olho. Dói, incomoda muito com a luz e baixa a visão — e distingue-se claramente de uma conjuntivite banal.

É uma das causas evitáveis de perda de visão mais subestimadas, sobretudo porque se confunde com conjuntivite e se trata com o colírio errado durante dias decisivos. A uveíte exige diagnóstico rápido, tratamento anti-inflamatório dirigido e, muitas vezes, investigação sistémica: em cerca de metade dos casos, o olho é a primeira manifestação de uma doença que está noutro sítio do corpo.

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Inflamação dentro do olho

A úvea é a camada intermédia do olho, rica em vasos sanguíneos, formada pela íris, pelo corpo ciliar e pela coróide. Quando inflama, libertam-se células e proteínas para o interior do olho, que é normalmente um meio transparente.

Classifica-se pela localização, e isso determina o quadro clínico:

  • Uveíte anterior (irite) — a mais comum. Dor, vermelhidão concentrada à volta da córnea, fotofobia intensa e pupila pequena e pouco reactiva.
  • Uveíte intermédia — inflamação no vítreo. Predominam as moscas volantes e a visão turva, com pouca dor e pouca vermelhidão.
  • Uveíte posterior — envolve a retina e a coróide. Baixa de visão sem olho vermelho, o que atrasa frequentemente o diagnóstico.
  • Panuveíte — envolvimento de todas as camadas.

É essencial não confundir com conjuntivite. A conjuntivite incomoda, tem secreção e a vermelhidão é difusa. A uveíte dói, não tem secreção, e a vermelhidão concentra-se num anel à volta da íris.

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O olho como sinal de alarme do corpo

Doenças auto-imunes

Espondilite anquilosante, artrite reactiva, doença inflamatória intestinal, sarcoidose. O gene HLA-B27 associa-se fortemente à uveíte anterior recorrente.

Infecções

Herpes, toxoplasmose, tuberculose, sífilis. Distingui-las é decisivo, porque o tratamento é oposto ao das formas auto-imunes.

Traumatismo

Uma contusão ocular pode desencadear inflamação intraocular dias depois do acidente.

Pós-operatória

Alguma inflamação é esperada após cirurgia intraocular; quando excede o previsto, trata-se como uveíte.

Artrite idiopática juvenil

Nas crianças, a uveíte associada pode ser completamente assintomática e silenciosa — daí o rastreio programado nestes doentes.

Idiopática

Numa proporção importante dos casos não se identifica causa, apesar de investigação completa.

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Confirmar e procurar a causa

O diagnóstico faz-se em consulta, com lâmpada de fenda: observam-se as células em suspensão no humor aquoso, que são o sinal directo de inflamação intraocular. A partir daí a investigação tem dois objectivos.

  • Avaliar a extensão — medição da pressão intraocular, que pode subir de forma perigosa; observação do fundo ocular com dilatação; OCT macular, porque o edema macular é a principal causa de perda de visão nestes doentes.
  • Procurar a causa — análises dirigidas, tipagem HLA-B27, serologias infecciosas e, quando indicado, radiografia torácica. A investigação orienta-se pelo padrão clínico e não se pedem exames ao acaso.

Numa primeira uveíte anterior ligeira e típica, muitas vezes trata-se e observa-se a resposta antes de investigar. Perante recorrência, bilateralidade ou atingimento posterior, a investigação sistémica é obrigatória — e nesse contexto a articulação com Medicina Interna ou Reumatologia é parte do tratamento.

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Apagar a inflamação depressa

Corticóide tópico

A base do tratamento na uveíte anterior. Em frequência elevada ao início, reduzida progressivamente. Interromper cedo demais é a causa mais comum de recaída.

Colírio ciclopégico

Dilata a pupila e paralisa temporariamente o músculo ciliar. Alivia muito a dor e — sobretudo — impede que a íris inflamada adira ao cristalino, o que deixaria sequelas permanentes.

Tratamento da causa infecciosa

Quando há infecção identificada, o antimicrobiano dirigido é prioritário. Usar corticóide isolado numa uveíte herpética agrava gravemente o quadro.

Corticóide sistémico ou injectável

Nas formas intermédias e posteriores, ou quando o tópico não alcança a inflamação.

Imunomoduladores

Nas uveítes crónicas ou recorrentes, poupam a exposição prolongada a corticóide. Geridos em conjunto com a especialidade médica que segue a doença de base.

Vigilância das complicações

Pressão intraocular, catarata, edema macular e sinéquias. É por isso que o acompanhamento se mantém depois de a inflamação ceder.

Perguntas frequentes sobre uveíte

Como distingo uveíte de conjuntivite?

Três diferenças resolvem a dúvida na maioria dos casos. A dor: a conjuntivite incomoda, a uveíte dói de verdade. A fotofobia: na uveíte a luz é intensamente incomodativa, ao ponto de custar abrir o olho. E a secreção: a conjuntivite tem secreção, a uveíte não. Há ainda um sinal visual — na uveíte a vermelhidão concentra-se num anel à volta da íris, enquanto na conjuntivite é difusa por todo o branco do olho.

A uveíte pode deixar sequelas?

Pode, quando não é tratada a tempo ou quando recorre repetidamente. As principais são o edema macular, que é a causa mais frequente de perda de visão nestes doentes, a catarata precoce, o glaucoma secundário e as sinéquias — aderências da íris que deformam a pupila de forma permanente. Tratada precocemente e de forma adequada, a esmagadora maioria dos episódios resolve sem sequelas.

Porque é que me mandaram fazer análises e radiografia?

Porque em cerca de metade dos casos a uveíte é a manifestação ocular de uma doença sistémica — frequentemente reumatológica ou infecciosa — que ainda não foi diagnosticada. O olho é, nesses casos, o primeiro sítio onde a doença se mostra. Identificar a causa muda o tratamento e, muitas vezes, beneficia o paciente muito para além do olho.

Vai voltar?

Depende da causa. Uma uveíte associada a traumatismo ou a um episódio infeccioso isolado costuma não recorrer. As formas associadas a doença auto-imune, sobretudo em portadores do HLA-B27, tendem a repetir-se ao longo dos anos. Nesses casos vale a pena o paciente reconhecer os primeiros sintomas e ter acesso rápido a consulta: começar o tratamento nas primeiras vinte e quatro horas encurta muito o episódio.

Posso usar o colírio que me deram da última vez?

Não deve iniciar corticóide por sua iniciativa. A razão é concreta e importante: se a uveíte for de causa herpética, o corticóide sem cobertura antivírica agrava gravemente o quadro e pode deixar cicatriz na córnea. Perante sintomas de recorrência, o caminho é a consulta rápida — não a repetição da receita anterior.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

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