07 · Cirurgias

Troca de Cristalino Refractiva

A troca de cristalino é a mesma cirurgia da catarata, feita antes de haver catarata. Substitui-se um cristalino ainda transparente mas já sem capacidade de focar, por uma lente que corrige a graduação.

Conhecida internacionalmente como CLE ou RLE, é a resposta cirúrgica para quem passou dos quarenta e cinco anos e quer deixar de depender de óculos a todas as distâncias. Tem uma vantagem que nenhuma outra técnica oferece — resolve a presbiopia e elimina para sempre a possibilidade de catarata — e uma contrapartida que tem de ser dita com clareza: remove-se um cristalino que ainda funciona, e essa decisão é irreversível.

Com a lente adequada, corrige longe, intermédio e perto Todas as distâncias
O cristalino removido não pode voltar a opacificar Sem catarata futura
Duração média por olho 15 minutos
A lente implantada não se substitui nem se degrada Definitiva
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A cirurgia da catarata, antecipada

O cristalino é a lente natural do olho. Até aos quarenta anos muda de forma para focar a diferentes distâncias; a partir daí perde elasticidade e essa capacidade extingue-se — é a presbiopia. Mais tarde perde também transparência, e aí chama-se catarata.

A troca de cristalino intervém na fase intermédia: o cristalino ainda é transparente, mas já não acomoda. Remove-se por facoemulsificação, exactamente como na cirurgia de catarata, e implanta-se uma lente intraocular calculada para a graduação desejada.

A escolha da lente é aqui ainda mais determinante do que na catarata, porque o paciente vem de uma visão funcional e a expectativa é alta:

  • Trifocal — máxima independência de óculos, com halos nocturnos como contrapartida
  • EDOF — visão contínua e de alta qualidade, podendo exigir óculos para letra pequena
  • Monofocal Plus — longe e intermédio, com óculos para leitura
  • Tórica — acrescentável a qualquer das anteriores, quando existe astigmatismo
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Quem beneficia, e quem não

Acima dos 45 a 50 anos

A indicação principal. Nesta idade a acomodação já se perdeu, e por isso removê-la não representa perda real.

Hipermetropia com presbiopia

O perfil que mais beneficia: resolve dois problemas de uma vez e o laser tem aqui resultados menos previsíveis.

Córnea não elegível para laser

Espessura insuficiente, topografia irregular ou graduação fora do alcance da ablação.

Cristalino já com alterações iniciais

Quando existem sinais precoces de opacificação, a decisão torna-se mais fácil — a cirurgia seria necessária de qualquer forma.

Pacientes jovens — habitualmente não

Abaixo dos 45 anos, remover um cristalino que ainda acomoda é sacrificar função. Nessa idade a ICL costuma ser a opção certa.

Retina que exige cautela

Na miopia elevada há risco acrescido de descolamento de retina após a cirurgia. Não é contraindicação absoluta, mas obriga a exame prévio e a conversa franca.

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Como decorre

Avaliação e biometria

Mede-se o olho com precisão para calcular a potência da lente. Se existir olho seco ou pterígio, tratam-se primeiro — falseiam as medições e comprometem o resultado.

Escolha da lente

A conversa mais importante de todo o processo. Cruza-se a anatomia com o perfil de vida: quanto conduz à noite, quanto lê, se trabalha ao ecrã, que compromissos aceita.

Preparação

Gotas anestésicas e dilatadoras, anestesia tópica. Com anestesista presente no bloco, é exigido um mínimo de 6 horas de jejum.

Facoemulsificação

Microincisão de cerca de 2 milímetros, fragmentação do cristalino por ultrassons e aspiração, preservando a cápsula.

Implante da lente

A lente é introduzida dobrada pela mesma incisão e desdobra-se dentro da cápsula, na posição calculada.

Segundo olho e adaptação

Opera-se um olho de cada vez, com intervalo de dias a semanas. Com lentes multifocais, a neuroadaptação leva semanas a meses até o cérebro tirar pleno partido da lente.

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A conversa honesta antes de decidir

Esta é uma cirurgia electiva feita num olho que vê. Isso obriga a um nível de exigência informativa superior ao de uma cirurgia por doença, e há pontos que não podem ficar por dizer:

  • É irreversível. O cristalino removido não regressa. A lente implantada pode em teoria ser trocada, mas é um procedimento com risco acrescido e não é uma via a contar como plano B.
  • Perde-se a acomodação residual. Nos pacientes mais jovens, o pouco que resta ainda tem valor.
  • Risco de descolamento de retina aumentado, sobretudo em olhos míopes — ver descolamento de retina.
  • Halos e encandeamento nocturnos, com lentes multifocais, sobretudo nos primeiros meses.
  • A mácula tem de estar saudável. Com DMI ou edema macular, as lentes multifocais estão desaconselhadas.
  • Opacificação da cápsula — frequente com o tempo, resolvida com capsulotomia YAG.

Em contrapartida, elimina definitivamente a possibilidade de catarata e resolve num só acto a graduação e a presbiopia. Para o perfil certo de paciente, é uma troca claramente favorável. Para o perfil errado, não é — e dizê-lo faz parte do trabalho.

Perguntas frequentes sobre troca de cristalino refractiva

Uso lentes de contacto. Preciso de as suspender antes da avaliação?

Sim, e é a preparação que mais consultas faz repetir. Para avaliar qualquer cirurgia — laser ou catarata — é necessária, no mínimo, uma semana sem lentes de contacto.

As lentes moldam a córnea enquanto são usadas, e a córnea leva dias a recuperar a sua forma própria. Medir antes disso dá uma topografia e uma biometria falseadas — e um cálculo feito sobre medidas erradas leva a uma cirurgia com o resultado errado.

Na prática: lentes moles, pelo menos 7 dias; lentes rígidas ou permeáveis a gases, pelo menos 15 dias, por vezes mais conforme o tempo de uso. Sem esse intervalo a avaliação não é conclusiva e há que remarcar. Se usa lentes, diga-o ao marcar: ajustamos a data para não perder a viagem.

É a mesma cirurgia da catarata?

Tecnicamente sim, com a mesma técnica, o mesmo tipo de lente e a mesma recuperação. O que muda é o motivo: na catarata remove-se um cristalino que perdeu transparência e está a tirar visão; aqui remove-se um cristalino ainda transparente que já não consegue focar ao perto. A cirurgia é a mesma; a decisão é que é diferente, porque é electiva.

Vou deixar de precisar de óculos?

Depende da lente escolhida, e é por isso que essa conversa é a parte mais importante do processo. Com uma lente trifocal, a maioria dos pacientes dispensa óculos na generalidade das actividades. Com EDOF, vê bem ao longe e ao intermédio e pode precisar de óculos para letra muito pequena. Com monofocal, precisará de óculos para perto. Nenhuma lente devolve a acomodação natural — o que fazem é distribuir a luz de maneiras diferentes, e cada distribuição tem o seu compromisso.

Já não posso ter catarata?

Exactamente. A catarata é a opacificação do cristalino natural, e uma vez removido não há tecido que possa opacificar. É uma das vantagens reais desta cirurgia, sobretudo em quem já tem alterações iniciais. O que pode acontecer com o tempo é a cápsula que aloja a lente perder transparência — e isso resolve-se com laser YAG, em minutos e sem cirurgia.

Tenho 38 anos. Posso fazer?

Pode, mas raramente é o que está indicado, e vale a pena perceber porquê. Aos 38 anos o cristalino ainda acomoda — ainda muda de forma para focar ao perto — e removê-lo significa sacrificar uma função que ainda existe. Nessa idade a resposta certa é habitualmente a cirurgia laser, se a córnea permitir, ou as lentes fáquicas ICL, que preservam o cristalino.

Sou míope elevado. Há risco acrescido?

Há, e deve ser pesado. Nos olhos com miopia elevada o risco de descolamento de retina após remoção do cristalino é superior ao da população em geral, porque a retina já é mais fina e distendida à partida. Não é uma contraindicação absoluta, mas obriga a exame cuidadoso da periferia da retina antes de operar, ao tratamento prévio de eventuais lesões a laser, e a uma explicação franca dos sinais de alarme. Ver retinopatia miópica.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

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