08 · Problemas de Visão

Terçolho e Calázio

Um caroço na pálpebra é quase sempre uma de duas coisas: um terçolho, que é uma infecção aguda e dolorosa, ou um calázio, que é um quisto crónico e indolor. A distinção define todo o tratamento.

São das queixas mais comuns e das mais mal tratadas, precisamente porque se confundem uma com a outra. O terçolho pede calor e paciência; o calázio, quando persiste, pede um pequeno procedimento. Tratar um calázio com antibiótico é uma das razões pelas quais tantos pacientes chegam à consulta com um caroço que já dura meses.

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Duas lesões diferentes, no mesmo sítio

Ambos surgem das glândulas da pálpebra, mas o mecanismo é distinto.

  • Terçolho (hordéolo) — infecção bacteriana aguda de uma glândula da margem palpebral. Aparece em poucos dias, é doloroso, vermelho e quente, e frequentemente drena sozinho. É o equivalente a um furúnculo na pálpebra.
  • Calázio — obstrução crónica de uma glândula de Meibómio, sem infecção. O conteúdo gorduroso retido provoca uma reacção inflamatória e forma-se um nódulo firme, indolor, mais afastado da margem da pálpebra. Instala-se ao longo de semanas.

Um terçolho mal resolvido pode transformar-se em calázio: a infecção passa, mas fica a obstrução e o nódulo residual.

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Porque aparecem

Blefarite crónica

A inflamação da margem palpebral é o factor mais importante. Quem tem blefarite tende a repetir terçolhos e calázios ao longo da vida.

Disfunção das glândulas de Meibómio

A gordura produzida torna-se espessa e obstrui o canal de saída. É a mesma alteração que está na base do olho seco por evaporação.

Rosácea

A rosácea cutânea tem uma forma ocular que se manifesta exactamente assim: calázios de repetição e blefarite persistente.

Higiene palpebral insuficiente

Restos de maquilhagem e descamação acumulam-se na margem e obstruem os orifícios das glândulas.

Esfregar os olhos

Traumatismo repetido da margem palpebral, frequente em quem tem alergia ocular.

Alterações hormonais e stress

Modificam a composição da secreção das glândulas e favorecem a obstrução.

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O que resolve cada um

Calor húmido — a base de tudo

Compressas quentes durante dez minutos, três a quatro vezes por dia. Amolecem a secreção espessa e permitem que a glândula drene. É o tratamento mais eficaz e o mais mal cumprido: exige constância durante semanas.

Massagem da pálpebra

A seguir ao calor, massajar suavemente no sentido da margem, para ajudar a expulsar o conteúdo. Sempre com a pálpebra fechada e sem força.

Higiene da margem palpebral

Limpeza diária com toalhete próprio ou solução específica. Trata a blefarite de fundo e previne a recidiva, que é o verdadeiro problema.

Antibiótico — só no terçolho

Pomada antibiótica quando há infecção activa. Num calázio não infectado o antibiótico não faz nada, e é precisamente aí que se perdem meses de tratamento.

Nunca espremer

Espremer um terçolho propaga a infecção para os tecidos vizinhos e pode provocar celulite palpebral. É a intervenção mais tentadora e a mais prejudicial.

Drenagem cirúrgica

Quando o calázio persiste para lá de algumas semanas apesar do tratamento correcto, faz-se um pequeno procedimento em consulta, com anestesia local, pela face interna da pálpebra e sem cicatriz visível.

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Sinais que exigem observação

A esmagadora maioria resolve-se sem complicações. Há, no entanto, situações que exigem avaliação sem demora:

  • Inchaço que se estende à face ou à órbita, com febre — pode ser uma celulite, que é uma urgência
  • Alteração da visão ou dificuldade em mover o olho
  • Um calázio que recidiva sempre no mesmo local — merece biópsia para excluir uma lesão de outra natureza
  • Perda de pestanas na zona do nódulo, ou alteração da margem palpebral
  • Lesão que sangra, ulcera ou cresce de forma persistente

Este último ponto justifica insistência. Um carcinoma das glândulas sebáceas da pálpebra pode apresentar-se exactamente como um calázio banal que não passa. É raro, mas é a razão pela qual um nódulo que recidiva sempre no mesmo sítio não deve ser drenado uma terceira vez sem análise.

Perguntas frequentes sobre terçolho e calázio

Quanto tempo demora a passar?

Um terçolho resolve-se habitualmente em uma a duas semanas, muitas vezes drenando espontaneamente. Um calázio é mais lento: pode levar semanas a meses, e uma parte resolve-se sem qualquer intervenção. Se ao fim de quatro a seis semanas de calor e higiene bem feitos o nódulo continuar igual, é altura de considerar a drenagem.

Posso espremer?

Não, em nenhuma circunstância. Espremer um terçolho empurra a infecção para os tecidos à volta e pode desencadear uma celulite palpebral, que é bem mais séria do que o terçolho inicial. Num calázio, espremer não drena nada — o conteúdo está encapsulado — e só agrava a inflamação.

Porque é que me aparecem terçolhos com tanta frequência?

Quase sempre porque existe uma blefarite ou uma disfunção das glândulas de Meibómio de fundo, que não está a ser tratada. Cada terçolho é tratado isoladamente, passa, e volta a aparecer meses depois porque a causa continua lá. A solução é a higiene palpebral diária como rotina permanente, não como tratamento de crise. Vale a pena avaliar também se existe olho seco associado, porque o mecanismo é o mesmo.

A drenagem do calázio deixa cicatriz?

Não visível. O procedimento faz-se habitualmente pela face interna da pálpebra, com uma pequena incisão que não deixa marca externa. É feito em consulta, com anestesia local, e demora poucos minutos. A pálpebra fica inchada e com hematoma durante alguns dias.

Posso usar maquilhagem ou lentes de contacto?

Durante a fase aguda, não. A maquilhagem obstrui ainda mais os orifícios das glândulas e as lentes de contacto ficam contaminadas. Retomam-se ambas depois de a inflamação resolver. Quem tem calázios de repetição deve rever os produtos que usa e desmaquilhar sempre a margem palpebral com cuidado.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

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