Blefarite crónica
A inflamação da margem palpebral é o factor mais importante. Quem tem blefarite tende a repetir terçolhos e calázios ao longo da vida.
Um caroço na pálpebra é quase sempre uma de duas coisas: um terçolho, que é uma infecção aguda e dolorosa, ou um calázio, que é um quisto crónico e indolor. A distinção define todo o tratamento.
São das queixas mais comuns e das mais mal tratadas, precisamente porque se confundem uma com a outra. O terçolho pede calor e paciência; o calázio, quando persiste, pede um pequeno procedimento. Tratar um calázio com antibiótico é uma das razões pelas quais tantos pacientes chegam à consulta com um caroço que já dura meses.
Duas lesões diferentes, no mesmo sítio
Ambos surgem das glândulas da pálpebra, mas o mecanismo é distinto.
Um terçolho mal resolvido pode transformar-se em calázio: a infecção passa, mas fica a obstrução e o nódulo residual.
Porque aparecem
A inflamação da margem palpebral é o factor mais importante. Quem tem blefarite tende a repetir terçolhos e calázios ao longo da vida.
A gordura produzida torna-se espessa e obstrui o canal de saída. É a mesma alteração que está na base do olho seco por evaporação.
A rosácea cutânea tem uma forma ocular que se manifesta exactamente assim: calázios de repetição e blefarite persistente.
Restos de maquilhagem e descamação acumulam-se na margem e obstruem os orifícios das glândulas.
Traumatismo repetido da margem palpebral, frequente em quem tem alergia ocular.
Modificam a composição da secreção das glândulas e favorecem a obstrução.
O que resolve cada um
Compressas quentes durante dez minutos, três a quatro vezes por dia. Amolecem a secreção espessa e permitem que a glândula drene. É o tratamento mais eficaz e o mais mal cumprido: exige constância durante semanas.
A seguir ao calor, massajar suavemente no sentido da margem, para ajudar a expulsar o conteúdo. Sempre com a pálpebra fechada e sem força.
Limpeza diária com toalhete próprio ou solução específica. Trata a blefarite de fundo e previne a recidiva, que é o verdadeiro problema.
Pomada antibiótica quando há infecção activa. Num calázio não infectado o antibiótico não faz nada, e é precisamente aí que se perdem meses de tratamento.
Espremer um terçolho propaga a infecção para os tecidos vizinhos e pode provocar celulite palpebral. É a intervenção mais tentadora e a mais prejudicial.
Quando o calázio persiste para lá de algumas semanas apesar do tratamento correcto, faz-se um pequeno procedimento em consulta, com anestesia local, pela face interna da pálpebra e sem cicatriz visível.
Sinais que exigem observação
A esmagadora maioria resolve-se sem complicações. Há, no entanto, situações que exigem avaliação sem demora:
Este último ponto justifica insistência. Um carcinoma das glândulas sebáceas da pálpebra pode apresentar-se exactamente como um calázio banal que não passa. É raro, mas é a razão pela qual um nódulo que recidiva sempre no mesmo sítio não deve ser drenado uma terceira vez sem análise.
Perguntas frequentes sobre terçolho e calázio
Um terçolho resolve-se habitualmente em uma a duas semanas, muitas vezes drenando espontaneamente. Um calázio é mais lento: pode levar semanas a meses, e uma parte resolve-se sem qualquer intervenção. Se ao fim de quatro a seis semanas de calor e higiene bem feitos o nódulo continuar igual, é altura de considerar a drenagem.
Não, em nenhuma circunstância. Espremer um terçolho empurra a infecção para os tecidos à volta e pode desencadear uma celulite palpebral, que é bem mais séria do que o terçolho inicial. Num calázio, espremer não drena nada — o conteúdo está encapsulado — e só agrava a inflamação.
Quase sempre porque existe uma blefarite ou uma disfunção das glândulas de Meibómio de fundo, que não está a ser tratada. Cada terçolho é tratado isoladamente, passa, e volta a aparecer meses depois porque a causa continua lá. A solução é a higiene palpebral diária como rotina permanente, não como tratamento de crise. Vale a pena avaliar também se existe olho seco associado, porque o mecanismo é o mesmo.
Não visível. O procedimento faz-se habitualmente pela face interna da pálpebra, com uma pequena incisão que não deixa marca externa. É feito em consulta, com anestesia local, e demora poucos minutos. A pálpebra fica inchada e com hematoma durante alguns dias.
Durante a fase aguda, não. A maquilhagem obstrui ainda mais os orifícios das glândulas e as lentes de contacto ficam contaminadas. Retomam-se ambas depois de a inflamação resolver. Quem tem calázios de repetição deve rever os produtos que usa e desmaquilhar sempre a margem palpebral com cuidado.
Referências e leitura complementar
A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.
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