10 · Cirurgias

Punctoplastia

O olho lacrimeja permanentemente e a lágrima escorre pela face, mesmo sem emoção nem vento. Quando a causa é o estreitamento do orifício de drenagem, resolve-se com um procedimento de minutos.

O lacrimejo constante é uma queixa incapacitante e socialmente incómoda — obriga a limpar o olho continuamente, embacia a visão e irrita a pele da pálpebra. Tem várias causas possíveis, e a que esta página trata é uma das mais simples de resolver: o estreitamento do ponto lacrimal, o pequeno orifício por onde a lágrima sai do olho.

Duração do procedimento 5 a 10 minutos
Anestesia local, sem bloco operatório Em consulta
A drenagem restabelece-se de imediato Alívio rápido
A incisão fica na face interna da pálpebra Sem cicatriz
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Por onde sai a lágrima

A lágrima é produzida continuamente e drenada de forma contínua. A cada pestanejo é empurrada para o canto interno do olho, onde entra por dois orifícios minúsculos — os pontos lacrimais, um na pálpebra superior e outro na inferior. Daí segue por pequenos canais até ao saco lacrimal e, por fim, para o nariz.

É essa a razão pela qual o nariz pinga quando se chora: a lágrima em excesso desagua ali.

Quando o ponto lacrimal estreita ou fecha — a estenose do ponto lacrimal — a lágrima produzida normalmente deixa de ter por onde sair. Acumula-se e transborda pela pálpebra. Chama-se epífora.

As causas mais frequentes são:

  • Inflamação crónica da margem palpebral — blefarite de longa duração
  • Envelhecimento, com fibrose progressiva do orifício
  • Colírios crónicos, sobretudo os usados no glaucoma, e alguns fármacos sistémicos
  • Traumatismo ou cirurgia palpebral prévia
  • Infecções repetidas das vias lacrimais
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Nem todo o lacrimejo é obstrução

Este é o ponto decisivo desta página, e a razão pela qual não se opera sem avaliar. O lacrimejo tem várias causas possíveis, e algumas são exactamente o oposto do que parecem:

  • Olho seco — a superfície irritada desencadeia lacrimejo reflexo. O olho lacrimeja porque está seco. Operar a drenagem neste caso agrava o problema.
  • Estenose do ponto lacrimal — o orifício está estreitado. É o que a punctoplastia resolve.
  • Obstrução do canal nasolacrimal — o bloqueio é mais abaixo, e exige outra cirurgia.
  • Má posição da pálpebra — ectrópio ou entrópio, em que o ponto lacrimal deixa de contactar com o lago de lágrima.
  • Irritação da superfícieconjuntivite alérgica, pterígio, triquíase ou corpo estranho.

A avaliação inclui observação com lâmpada de fenda, inspecção directa dos pontos lacrimais, teste de desaparecimento da fluoresceína e, quando indicado, entubação e irrigação das vias lacrimais para localizar exactamente o nível da obstrução.

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Como se faz

Anestesia local

Aplica-se anestésico tópico e infiltra-se o canto interno da pálpebra. É a parte mais desconfortável, e dura segundos.

Dilatação do ponto

Introduz-se um dilatador muito fino no orifício estreitado, para o alargar progressivamente e permitir o acesso.

Incisão de alargamento

Faz-se um pequeno corte na parede do canalículo, pela face interna da pálpebra — habitualmente em dois ou três cortes que criam a abertura definitiva.

Irrigação de confirmação

Irriga-se a via lacrimal com soro para confirmar que a drenagem está permeável até ao nariz. O paciente sente o líquido na garganta, e é esse o sinal de sucesso.

Entubação, se necessário

Em casos com tendência a re-estenosar, coloca-se um tubo de silicone muito fino que se mantém algumas semanas e depois se retira em consulta.

Alta imediata

Regressa a casa a seguir, com colírio antibiótico durante alguns dias. Retoma a actividade normal no próprio dia.

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O que esperar

Alívio habitualmente imediato

Quando a estenose era a causa única, a drenagem restabelece-se logo e o lacrimejo reduz-se de forma marcada.

Desconforto ligeiro

Alguma sensibilidade no canto interno durante um ou dois dias, que cede com analgésico comum.

Possibilidade de re-estenose

O orifício pode voltar a estreitar com o tempo. É a razão pela qual, em casos de risco, se coloca entubação de silicone.

Se persistir, investigar mais abaixo

Lacrimejo mantido após punctoplastia bem sucedida sugere obstrução do canal nasolacrimal, que exige outra abordagem.

Tratar a causa de base

Blefarite e olho seco associados devem ser tratados em paralelo, ou o problema recorre.

Ambos os olhos

É frequente ser bilateral. Podem tratar-se na mesma sessão, dado que a recuperação é praticamente imediata.

Perguntas frequentes sobre punctoplastia

Porque é que o meu olho lacrimeja se me dizem que tenho olho seco?

Parece contraditório e é a pergunta mais frequente sobre este tema. A explicação é que a superfície irritada pela secura desencadeia um reflexo: a glândula lacrimal responde produzindo uma descarga de lágrima abundante mas de má qualidade, que escorre em vez de proteger. O olho lacrimeja precisamente porque está seco. Nesse caso o tratamento é o do olho seco, e mexer na drenagem só agravaria o quadro.

É uma cirurgia a sério?

É um procedimento cirúrgico menor, feito em consulta com anestesia local e sem necessidade de bloco operatório. Dura poucos minutos, não exige jejum nem preparação prévia, e retoma a actividade normal no próprio dia. Em termos de exigência é comparável à drenagem de um calázio.

E se não resolver?

Significa habitualmente que a obstrução não estava — ou não estava apenas — no ponto lacrimal, mas mais abaixo, no canal que liga ao nariz. Nesse caso a solução é outra cirurgia, a dacriocistorrinostomia, que cria uma nova via de drenagem directa para a cavidade nasal. É um procedimento maior, e por isso a avaliação prévia procura localizar o nível exacto da obstrução antes de intervir.

Pode voltar a fechar?

Pode, e é a limitação conhecida desta técnica. A cicatrização pode estreitar novamente a abertura criada, sobretudo em pacientes com inflamação crónica da margem palpebral. Para reduzir esse risco, em casos seleccionados coloca-se um tubo de silicone que mantém a via aberta durante a cicatrização e se retira algumas semanas depois. Tratar a blefarite de base é igualmente parte da prevenção.

O lacrimejo constante pode dar problemas além do incómodo?

Pode. A lágrima retida é meio favorável a infecções repetidas das vias lacrimais, que se manifestam como inchaço doloroso no canto interno do olho. A humidade permanente irrita e macera a pele da pálpebra. E a película de lágrima instável embacia a visão de forma intermitente, o que é particularmente incómodo a conduzir e a ler.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

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