20 · Problemas de Visão

Catarata

A catarata é a perda de transparência do cristalino, a lente natural do olho. A visão vai ficando turva, as cores perdem intensidade e a luz encandeia — de forma tão gradual que muitos pacientes só percebem a diferença depois de operar.

É a principal causa de perda de visão reversível no mundo. A palavra que interessa é reversível: ao contrário do glaucoma ou da degenerescência macular, a visão perdida por catarata recupera-se quase sempre por completo. O que se perde é tempo — anos a ver mal por se acreditar que era da idade, ou que era preciso esperar que a catarata «amadurecesse».

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Uma lente que deixa de ser transparente

Atrás da íris — a parte colorida do olho — existe uma lente natural, o cristalino. É transparente, flexível e responsável por afinar o foco da imagem sobre a retina.

Com o tempo, as proteínas que a compõem alteram-se e agregam-se. O cristalino amarelece, ganha zonas opacas e deixa de deixar passar a luz limpamente. É isso a catarata: não é uma membrana que se forma por cima do olho, é a lente que está por dentro a perder transparência.

Daí decorrem duas coisas que explicam quase todos os sintomas:

  • Passa menos luz — a visão fica progressivamente mais turva e mais escura, sobretudo com pouca luz.
  • A luz que passa dispersa-se — em vez de seguir direita até à retina, espalha-se. É o que produz os halos e o encandeamento nocturno.

Há vários tipos, e não evoluem todos ao mesmo ritmo. A catarata nuclear amarelece o centro e afecta sobretudo a visão ao longe. A subcapsular posterior instala-se mesmo atrás da cápsula, progride depressa e incomoda muito com luz forte — é frequente em diabéticos e em quem fez corticóides prolongados.

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Como se manifesta

Visão turva e sem contraste

Como olhar através de um vidro embaciado. Instala-se tão devagar que o cérebro se habitua e o paciente deixa de notar.

Encandeamento e halos

Faróis que espalham, sol que incomoda, dificuldade crescente em conduzir de noite. É muitas vezes a primeira queixa.

Cores desbotadas

O amarelecimento do cristalino filtra os azuis. Os pacientes descrevem-no depois de operar: "não sabia que o branco era tão branco."

Mudança frequente de graduação

Óculos que deixam de servir de ano para ano. Por vezes há um período em que se lê melhor sem óculos — a chamada segunda vista.

Mais luz para as mesmas tarefas

Precisar de candeeiro para ler o que antes se lia à luz da sala.

Visão dupla num só olho

Contornos duplicados que persistem ao tapar o outro olho. Distingue-se da visão dupla neurológica, que desaparece nesse teste.

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Porque aparece

A causa dominante é a idade: acima dos 65 anos, a maioria das pessoas tem algum grau de catarata, ainda que sem repercussão. Não é uma doença que se apanha nem que se possa evitar por completo — é uma evolução natural do cristalino.

Há, porém, factores que a antecipam ou aceleram:

  • Exposição solar acumulada — a radiação ultravioleta é o factor ambiental melhor documentado, e um dos poucos sobre os quais se pode actuar
  • Diabetes — antecipa a catarata em vários anos e favorece a forma subcapsular
  • Corticóides prolongados, em comprimido, inalados ou em colírio
  • Tabaco
  • Miopia elevada, em que a catarata surge frequentemente já na década dos cinquenta
  • Traumatismo ocular, mesmo anos antes
  • Cirurgia intraocular prévia ou uveíte de repetição

Existe ainda a catarata congénita, presente à nascença, cuja detecção precoce é determinante para o desenvolvimento visual da criança.

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O que a consulta avalia

Confirmar que existe catarata é simples. O que exige rigor é responder a outra pergunta: quanta da visão que falta é da catarata? Um olho pode ter catarata e ter também glaucoma ou uma mácula comprometida — e operar sem saber isso leva a uma expectativa que não se cumpre.

  • Acuidade visual, medida também com encandeamento, que reproduz a condição real de condução nocturna
  • Biomicroscopia com lâmpada de fenda — identifica o tipo de catarata e o seu grau
  • Pressão intraocular — rastreio de glaucoma
  • Fundo ocular com dilatação — avalia retina e nervo óptico, que determinam quanto a visão pode realmente recuperar
  • OCT macular, quando há suspeita de DMI ou de edema — condiciona a escolha da lente
  • Biometria e topografia, quando já se planeia operar, para calcular a lente intraocular

Se usa lentes de contacto, suspenda-as antes desta consulta — no mínimo 7 dias as moles e 15 dias as rígidas. A córnea moldada pela lente falseia a biometria, e um cálculo feito sobre medidas erradas dá a lente errada.

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A cirurgia é o único tratamento

Não existem colírios, comprimidos, óculos ou exercícios que devolvam transparência a um cristalino que a perdeu. A catarata não regride e não se trata com medicação: o único tratamento é substituir o cristalino opaco por uma lente intraocular transparente.

A decisão de operar não se toma pelo aspecto da catarata no exame, mas pelo que ela está a tirar à vida do paciente. Há indicação quando:

  • A visão turva limita o que faz todos os dias — conduzir, ler, trabalhar, reconhecer rostos
  • O encandeamento nocturno compromete a condução
  • A graduação já não corrige o suficiente
  • A catarata impede observar a retina num olho que precisa dessa vigilância — um diabético, por exemplo
  • Raramente, quando o cristalino muito espesso eleva a pressão intraocular

A cirurgia de catarata é hoje o procedimento mais realizado de toda a medicina, dura cerca de 15 minutos por olho e faz-se com anestesia em gotas, em ambulatório. A escolha da lente é a decisão mais importante de todo o processo, e merece uma conversa sem pressa.

Perguntas frequentes sobre catarata

Tenho de esperar que a catarata amadureça para operar?

Não. É provavelmente o mito mais persistente sobre este assunto, e vem de uma época em que a técnica cirúrgica exigia um cristalino endurecido para o poder extrair inteiro. Com a facoemulsificação actual acontece o contrário: uma catarata muito densa é mais difícil e mais arriscada de operar, exige mais energia de ultrassons e tem recuperação mais lenta. Opera-se quando a visão começa a limitar a vida, não quando a catarata «está pronta».

A catarata pode voltar depois de operada?

Não pode. O cristalino é removido por completo e não se regenera — não há tecido que possa voltar a opacificar. O que acontece com alguma frequência é outra coisa: a cápsula fina que se preserva para alojar a lente pode perder transparência meses ou anos depois. Chama-se opacificação da cápsula posterior, e resolve-se com laser YAG em poucos minutos, sem cirurgia e de forma definitiva.

Existe algum colírio ou tratamento que evite a cirurgia?

Não, e desconfie de quem o afirme. Nenhum colírio, suplemento ou exercício visual devolve transparência a um cristalino opacificado — a alteração é estrutural, nas proteínas da própria lente. O que se pode fazer é atrasar o aparecimento: protecção solar com filtro ultravioleta, não fumar e controlar a diabetes.

Opera-se um olho de cada vez?

Sim, é a prática habitual, com um intervalo de dias a semanas entre os dois. Permite confirmar a recuperação do primeiro olho e, se necessário, afinar o cálculo da lente do segundo com base no resultado real obtido. No intervalo pode haver alguma diferença entre os dois olhos, que é temporária e habitualmente bem tolerada.

A minha catarata é dos dois olhos mas só um me incomoda. Opero os dois?

Opera-se o que está a limitar. Se o segundo olho tem catarata mas mantém boa visão funcional, pode acompanhar-se e operar mais tarde. Dito isto, é frequente que depois de operar o primeiro o paciente note melhor a diferença e queira operar o segundo — precisamente porque passa a ter um termo de comparação que antes não tinha.

Uso lentes de contacto. Preciso de as suspender antes da avaliação?

Sim, e é a preparação que mais consultas faz repetir. Para avaliar cirurgia de catarata é necessária, no mínimo, uma semana sem lentes de contacto: 7 dias as moles e 15 dias as rígidas. As lentes moldam a córnea, e uma córnea moldada dá uma biometria falseada — o cálculo da lente intraocular sai errado. Se usa lentes, diga-o ao marcar, para ajustarmos a data.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

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