Visão turva e sem contraste
Como olhar através de um vidro embaciado. Instala-se tão devagar que o cérebro se habitua e o paciente deixa de notar.
A catarata é a perda de transparência do cristalino, a lente natural do olho. A visão vai ficando turva, as cores perdem intensidade e a luz encandeia — de forma tão gradual que muitos pacientes só percebem a diferença depois de operar.
É a principal causa de perda de visão reversível no mundo. A palavra que interessa é reversível: ao contrário do glaucoma ou da degenerescência macular, a visão perdida por catarata recupera-se quase sempre por completo. O que se perde é tempo — anos a ver mal por se acreditar que era da idade, ou que era preciso esperar que a catarata «amadurecesse».
Uma lente que deixa de ser transparente
Atrás da íris — a parte colorida do olho — existe uma lente natural, o cristalino. É transparente, flexível e responsável por afinar o foco da imagem sobre a retina.
Com o tempo, as proteínas que a compõem alteram-se e agregam-se. O cristalino amarelece, ganha zonas opacas e deixa de deixar passar a luz limpamente. É isso a catarata: não é uma membrana que se forma por cima do olho, é a lente que está por dentro a perder transparência.
Daí decorrem duas coisas que explicam quase todos os sintomas:
Há vários tipos, e não evoluem todos ao mesmo ritmo. A catarata nuclear amarelece o centro e afecta sobretudo a visão ao longe. A subcapsular posterior instala-se mesmo atrás da cápsula, progride depressa e incomoda muito com luz forte — é frequente em diabéticos e em quem fez corticóides prolongados.
Como se manifesta
Como olhar através de um vidro embaciado. Instala-se tão devagar que o cérebro se habitua e o paciente deixa de notar.
Faróis que espalham, sol que incomoda, dificuldade crescente em conduzir de noite. É muitas vezes a primeira queixa.
O amarelecimento do cristalino filtra os azuis. Os pacientes descrevem-no depois de operar: "não sabia que o branco era tão branco."
Óculos que deixam de servir de ano para ano. Por vezes há um período em que se lê melhor sem óculos — a chamada segunda vista.
Precisar de candeeiro para ler o que antes se lia à luz da sala.
Contornos duplicados que persistem ao tapar o outro olho. Distingue-se da visão dupla neurológica, que desaparece nesse teste.
Porque aparece
A causa dominante é a idade: acima dos 65 anos, a maioria das pessoas tem algum grau de catarata, ainda que sem repercussão. Não é uma doença que se apanha nem que se possa evitar por completo — é uma evolução natural do cristalino.
Há, porém, factores que a antecipam ou aceleram:
Existe ainda a catarata congénita, presente à nascença, cuja detecção precoce é determinante para o desenvolvimento visual da criança.
O que a consulta avalia
Confirmar que existe catarata é simples. O que exige rigor é responder a outra pergunta: quanta da visão que falta é da catarata? Um olho pode ter catarata e ter também glaucoma ou uma mácula comprometida — e operar sem saber isso leva a uma expectativa que não se cumpre.
Se usa lentes de contacto, suspenda-as antes desta consulta — no mínimo 7 dias as moles e 15 dias as rígidas. A córnea moldada pela lente falseia a biometria, e um cálculo feito sobre medidas erradas dá a lente errada.
A cirurgia é o único tratamento
Não existem colírios, comprimidos, óculos ou exercícios que devolvam transparência a um cristalino que a perdeu. A catarata não regride e não se trata com medicação: o único tratamento é substituir o cristalino opaco por uma lente intraocular transparente.
A decisão de operar não se toma pelo aspecto da catarata no exame, mas pelo que ela está a tirar à vida do paciente. Há indicação quando:
A cirurgia de catarata é hoje o procedimento mais realizado de toda a medicina, dura cerca de 15 minutos por olho e faz-se com anestesia em gotas, em ambulatório. A escolha da lente é a decisão mais importante de todo o processo, e merece uma conversa sem pressa.
Perguntas frequentes sobre catarata
Não. É provavelmente o mito mais persistente sobre este assunto, e vem de uma época em que a técnica cirúrgica exigia um cristalino endurecido para o poder extrair inteiro. Com a facoemulsificação actual acontece o contrário: uma catarata muito densa é mais difícil e mais arriscada de operar, exige mais energia de ultrassons e tem recuperação mais lenta. Opera-se quando a visão começa a limitar a vida, não quando a catarata «está pronta».
Não pode. O cristalino é removido por completo e não se regenera — não há tecido que possa voltar a opacificar. O que acontece com alguma frequência é outra coisa: a cápsula fina que se preserva para alojar a lente pode perder transparência meses ou anos depois. Chama-se opacificação da cápsula posterior, e resolve-se com laser YAG em poucos minutos, sem cirurgia e de forma definitiva.
Não, e desconfie de quem o afirme. Nenhum colírio, suplemento ou exercício visual devolve transparência a um cristalino opacificado — a alteração é estrutural, nas proteínas da própria lente. O que se pode fazer é atrasar o aparecimento: protecção solar com filtro ultravioleta, não fumar e controlar a diabetes.
Sim, é a prática habitual, com um intervalo de dias a semanas entre os dois. Permite confirmar a recuperação do primeiro olho e, se necessário, afinar o cálculo da lente do segundo com base no resultado real obtido. No intervalo pode haver alguma diferença entre os dois olhos, que é temporária e habitualmente bem tolerada.
Opera-se o que está a limitar. Se o segundo olho tem catarata mas mantém boa visão funcional, pode acompanhar-se e operar mais tarde. Dito isto, é frequente que depois de operar o primeiro o paciente note melhor a diferença e queira operar o segundo — precisamente porque passa a ter um termo de comparação que antes não tinha.
Sim, e é a preparação que mais consultas faz repetir. Para avaliar cirurgia de catarata é necessária, no mínimo, uma semana sem lentes de contacto: 7 dias as moles e 15 dias as rígidas. As lentes moldam a córnea, e uma córnea moldada dá uma biometria falseada — o cálculo da lente intraocular sai errado. Se usa lentes, diga-o ao marcar, para ajustarmos a data.
Referências e leitura complementar
A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.
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