05 · Problemas de Visão

Olho Seco

O olho seco não é falta de água: é uma lágrima que deixou de proteger. Arde, incomoda como se houvesse areia dentro do olho e, paradoxalmente, muitas vezes lacrimeja.

É a queixa mais frequente numa consulta de oftalmologia e uma das mais subvalorizadas — durante anos foi tratada como um incómodo menor. Hoje sabe-se que é uma doença crónica da superfície ocular, com causas identificáveis e tratamento dirigido. No Algarve, o clima quente e seco e os meses de calima agravam-na de forma mensurável.

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Uma lágrima que perdeu a qualidade

A lágrima não é água. É um filme com três camadas que se renova a cada pestanejo e que mantém a córnea lisa, transparente e protegida:

  • Camada lipídica — produzida pelas glândulas de Meibómio, na margem das pálpebras. Sela o filme e impede que evapore.
  • Camada aquosa — produzida pela glândula lacrimal. Hidrata e transporta oxigénio e defesas.
  • Camada mucínica — faz a lágrima aderir à superfície do olho.

O olho seco surge quando alguma destas camadas falha. Daí as duas formas principais:

  • Por evaporação — a mais comum, de longe. A camada lipídica é insuficiente porque as glândulas de Meibómio estão obstruídas. Produz-se lágrima, mas ela evapora antes de cumprir a função.
  • Por défice aquoso — a glândula lacrimal produz pouca lágrima. Associa-se com frequência a doenças auto-imunes, como o síndrome de Sjögren.

Percebe-se assim o paradoxo que traz muitos pacientes à consulta: um olho seco que lacrimeja. A superfície irritada desencadeia lacrimejo reflexo — lágrima abundante, mas de má qualidade, que escorre em vez de proteger.

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Porque é que acontece

Idade e hormonas

A produção lacrimal diminui com a idade. As alterações hormonais da menopausa explicam a maior prevalência nas mulheres.

Ecrãs e ar condicionado

Ao computador o pestanejo reduz-se para menos de metade, e a lágrima evapora. O ar condicionado seca o ambiente.

Clima do Algarve e calima

Calor, vento e poeira em suspensão aceleram a evaporação. Nos episódios de calima as queixas agravam-se de forma clara.

Medicação sistémica

Anti-histamínicos, antidepressivos, diuréticos, anticoncepcionais e alguns anti-hipertensores reduzem a secreção lacrimal.

Lentes de contacto

O uso prolongado altera o filme lacrimal e é uma causa frequente de intolerância progressiva às lentes.

Blefarite e disfunção de Meibómio

A inflamação crónica da margem palpebral obstrui as glândulas que produzem a camada lipídica. É a causa mais comum de todas.

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Como se manifesta

Os sintomas variam ao longo do dia e agravam-se com o esforço visual — é essa flutuação que os distingue de outras causas de desconforto ocular:

  • Sensação de areia ou corpo estranho, sobretudo ao acordar e ao fim do dia
  • Ardor, picadas e vermelhidão persistentes
  • Lacrimejo paradoxal, em jactos, ao vento ou ao ler
  • Visão que oscila e melhora momentaneamente ao pestanejar
  • Fadiga visual ao computador, com necessidade de fechar os olhos
  • Intolerância às lentes de contacto que antes se usavam sem problema

Uma nota importante: a intensidade dos sintomas nem sempre corresponde à gravidade dos sinais. Há olhos muito lesados com poucas queixas e olhos com queixas intensas e pouca lesão visível. Ambos merecem tratamento.

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O que se avalia na consulta

Diagnosticar olho seco não é dizer que o olho está seco: é perceber porquê. O tratamento de um olho seco por evaporação é diferente do de um olho seco por défice aquoso, e tratá-los da mesma maneira explica muitos anos de lágrimas artificiais sem resultado.

  • Biomicroscopia com lâmpada de fenda — observa a margem palpebral, o estado das glândulas de Meibómio e a qualidade do filme lacrimal.
  • Tempo de ruptura do filme lacrimal — mede em quantos segundos a lágrima se desfaz após o pestanejo.
  • Coloração com fluoresceína — revela as lesões da córnea e da conjuntiva que a olho nu não se vêem.
  • Teste de Schirmer — quantifica a produção aquosa quando se suspeita de défice de secreção.
  • Avaliação sistémica — medicação habitual, doenças auto-imunes, hábitos de trabalho e ambiente.
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Do alívio ao tratamento da causa

Higiene palpebral e calor local

Na disfunção das glândulas de Meibómio é a base de tudo. Compressas quentes e limpeza da margem palpebral desobstruem as glândulas. Exige constância — resultados em semanas, não em dias.

Lágrimas artificiais adequadas

Não são todas iguais. Escolhem-se pela composição e pela viscosidade, conforme o tipo de olho seco. Em uso frequente, sempre sem conservantes.

Correcção dos factores ambientais

Pausas regulares ao ecrã, ajuste da altura do monitor, redução do ar condicionado directo, protecção do vento. Simples, e muitas vezes o que mais alivia.

Anti-inflamatórios tópicos

Nos casos moderados a graves quebra-se o ciclo de inflamação crónica com ciclosporina ou corticóide em curso curto e vigiado.

Oclusão dos pontos lacrimais

Tampões que retêm a lágrima na superfície do olho, no défice aquoso. Reversíveis, colocados em consulta.

Revisão da medicação sistémica

Em articulação com o médico assistente, quando um fármaco habitual é o factor determinante.

Perguntas frequentes sobre olho seco

O olho seco tem cura?

Na maioria dos casos é uma condição crónica, que se controla em vez de se curar — como acontece com a tensão arterial. Isso não é má notícia: com o tratamento certo, dirigido à causa e não apenas ao sintoma, a esmagadora maioria dos pacientes deixa de ter queixas no dia-a-dia. Quando existe uma causa reversível, como um medicamento ou um factor ambiental, a resolução pode ser completa.

Uso lágrimas artificiais há anos e não melhoro. Porquê?

É a pergunta mais frequente nesta consulta, e a resposta costuma ser uma de duas. Ou a lágrima usada não corresponde ao tipo de olho seco — a maioria dos casos é por evaporação, e nesses a lágrima artificial isolada trata pouco, porque o problema está nas glândulas da pálpebra. Ou existe inflamação crónica instalada que nenhum lubrificante resolve. Em ambos os casos a solução passa por um diagnóstico que distinga o mecanismo.

O clima do Algarve agrava o olho seco?

Sim, e de forma mensurável. O calor acelera a evaporação do filme lacrimal, o vento aumenta-a e os episódios de calima trazem partículas em suspensão que irritam directamente a superfície ocular. É um padrão bem documentado e uma das razões pelas quais a queixa é tão frequente nesta região, sobretudo no Verão.

Posso operar a catarata ou fazer cirurgia refractiva se tenho olho seco?

Pode, mas a ordem importa. Um olho seco não tratado falseia as medições pré-operatórias — a biometria e a topografia fazem-se sobre uma superfície irregular, e o cálculo da lente sai errado. Além disso, tanto a cirurgia refractiva como a cirurgia de catarata agravam temporariamente o olho seco. Por isso trata-se primeiro a superfície e opera-se depois, com medidas fiáveis e recuperação mais confortável.

O olho seco pode danificar a visão de forma permanente?

Nos casos ligeiros e moderados, não. Nos casos graves e prolongados sem tratamento, a córnea pode sofrer lesões — erosões persistentes e, raramente, cicatrizes ou úlceras que afectam a transparência. É invulgar, mas é a razão pela qual um olho seco grave não deve ser deixado a evoluir.

Referências e leitura complementar

A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.

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