Idade e hormonas
A produção lacrimal diminui com a idade. As alterações hormonais da menopausa explicam a maior prevalência nas mulheres.
O olho seco não é falta de água: é uma lágrima que deixou de proteger. Arde, incomoda como se houvesse areia dentro do olho e, paradoxalmente, muitas vezes lacrimeja.
É a queixa mais frequente numa consulta de oftalmologia e uma das mais subvalorizadas — durante anos foi tratada como um incómodo menor. Hoje sabe-se que é uma doença crónica da superfície ocular, com causas identificáveis e tratamento dirigido. No Algarve, o clima quente e seco e os meses de calima agravam-na de forma mensurável.
Uma lágrima que perdeu a qualidade
A lágrima não é água. É um filme com três camadas que se renova a cada pestanejo e que mantém a córnea lisa, transparente e protegida:
O olho seco surge quando alguma destas camadas falha. Daí as duas formas principais:
Percebe-se assim o paradoxo que traz muitos pacientes à consulta: um olho seco que lacrimeja. A superfície irritada desencadeia lacrimejo reflexo — lágrima abundante, mas de má qualidade, que escorre em vez de proteger.
Porque é que acontece
A produção lacrimal diminui com a idade. As alterações hormonais da menopausa explicam a maior prevalência nas mulheres.
Ao computador o pestanejo reduz-se para menos de metade, e a lágrima evapora. O ar condicionado seca o ambiente.
Calor, vento e poeira em suspensão aceleram a evaporação. Nos episódios de calima as queixas agravam-se de forma clara.
Anti-histamínicos, antidepressivos, diuréticos, anticoncepcionais e alguns anti-hipertensores reduzem a secreção lacrimal.
O uso prolongado altera o filme lacrimal e é uma causa frequente de intolerância progressiva às lentes.
A inflamação crónica da margem palpebral obstrui as glândulas que produzem a camada lipídica. É a causa mais comum de todas.
Como se manifesta
Os sintomas variam ao longo do dia e agravam-se com o esforço visual — é essa flutuação que os distingue de outras causas de desconforto ocular:
Uma nota importante: a intensidade dos sintomas nem sempre corresponde à gravidade dos sinais. Há olhos muito lesados com poucas queixas e olhos com queixas intensas e pouca lesão visível. Ambos merecem tratamento.
O que se avalia na consulta
Diagnosticar olho seco não é dizer que o olho está seco: é perceber porquê. O tratamento de um olho seco por evaporação é diferente do de um olho seco por défice aquoso, e tratá-los da mesma maneira explica muitos anos de lágrimas artificiais sem resultado.
Do alívio ao tratamento da causa
Na disfunção das glândulas de Meibómio é a base de tudo. Compressas quentes e limpeza da margem palpebral desobstruem as glândulas. Exige constância — resultados em semanas, não em dias.
Não são todas iguais. Escolhem-se pela composição e pela viscosidade, conforme o tipo de olho seco. Em uso frequente, sempre sem conservantes.
Pausas regulares ao ecrã, ajuste da altura do monitor, redução do ar condicionado directo, protecção do vento. Simples, e muitas vezes o que mais alivia.
Nos casos moderados a graves quebra-se o ciclo de inflamação crónica com ciclosporina ou corticóide em curso curto e vigiado.
Tampões que retêm a lágrima na superfície do olho, no défice aquoso. Reversíveis, colocados em consulta.
Em articulação com o médico assistente, quando um fármaco habitual é o factor determinante.
Perguntas frequentes sobre olho seco
Na maioria dos casos é uma condição crónica, que se controla em vez de se curar — como acontece com a tensão arterial. Isso não é má notícia: com o tratamento certo, dirigido à causa e não apenas ao sintoma, a esmagadora maioria dos pacientes deixa de ter queixas no dia-a-dia. Quando existe uma causa reversível, como um medicamento ou um factor ambiental, a resolução pode ser completa.
É a pergunta mais frequente nesta consulta, e a resposta costuma ser uma de duas. Ou a lágrima usada não corresponde ao tipo de olho seco — a maioria dos casos é por evaporação, e nesses a lágrima artificial isolada trata pouco, porque o problema está nas glândulas da pálpebra. Ou existe inflamação crónica instalada que nenhum lubrificante resolve. Em ambos os casos a solução passa por um diagnóstico que distinga o mecanismo.
Sim, e de forma mensurável. O calor acelera a evaporação do filme lacrimal, o vento aumenta-a e os episódios de calima trazem partículas em suspensão que irritam directamente a superfície ocular. É um padrão bem documentado e uma das razões pelas quais a queixa é tão frequente nesta região, sobretudo no Verão.
Pode, mas a ordem importa. Um olho seco não tratado falseia as medições pré-operatórias — a biometria e a topografia fazem-se sobre uma superfície irregular, e o cálculo da lente sai errado. Além disso, tanto a cirurgia refractiva como a cirurgia de catarata agravam temporariamente o olho seco. Por isso trata-se primeiro a superfície e opera-se depois, com medidas fiáveis e recuperação mais confortável.
Nos casos ligeiros e moderados, não. Nos casos graves e prolongados sem tratamento, a córnea pode sofrer lesões — erosões persistentes e, raramente, cicatrizes ou úlceras que afectam a transparência. É invulgar, mas é a razão pela qual um olho seco grave não deve ser deixado a evoluir.
Referências e leitura complementar
A informação desta página tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. Cada olho é um caso: o diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial pelo Dr. André Magalhães Oliveira.
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