Durante décadas ensinou-se aos pacientes que era preciso esperar. A catarata tinha de amadurecer antes de poder ser operada, e quem chegasse cedo demais ao consultório saía com a indicação de voltar dentro de um ou dois anos.

Essa regra pertence a outra época da oftalmologia. As técnicas cirúrgicas mudaram, e com elas mudou o critério — na direcção contrária àquela que a maioria das pessoas ainda tem em mente.

Porque é que a regra antiga deixou de fazer sentido

A cirurgia moderna de catarata usa facoemulsificação: o cristalino opaco é fragmentado por ultrassons e aspirado através de uma incisão de cerca de dois milímetros.

Quanto mais densa a catarata, mais energia ultrassónica é necessária para a fragmentar, e mais tempo essa energia permanece dentro do olho. Isso traduz-se em maior stress sobre as estruturas internas — nomeadamente o endotélio corneano, uma camada de células que não se regenera.

A técnica antiga, a extracção extracapsular, exigia uma incisão grande e beneficiava de um cristalino compacto. A facoemulsificação inverteu essa lógica. O critério mudou porque a operação mudou.

O critério actual é funcional, não anatómico

A pergunta relevante deixou de ser quão opaco está o cristalino e passou a ser o que é que já deixou de conseguir fazer.

Vale a pena responder com honestidade a esta lista:

  • Deixou de conduzir à noite por causa do encandeamento dos faróis?
  • Ler tornou-se cansativo mesmo com boa iluminação e óculos actualizados?
  • Mudou a graduação dos óculos duas ou três vezes em pouco tempo, sem melhoria real?
  • Abandonou actividades de que gostava — costura, leitura, golfe, trabalhos manuais?
  • Sente insegurança a descer escadas ou a andar em terreno irregular?
  • As cores parecem-lhe mais apagadas ou amareladas do que costumavam ser?

Se respondeu sim a duas ou mais, a catarata já está a condicionar a sua vida. Esse é o momento de a avaliar — não daqui a um ano.

O que a avaliação mede

Uma consulta de avaliação de catarata não se resume a olhar para o cristalino. Os dados que determinam o plano são estes:

ExameO que determina
Acuidade visual com e sem encandeamentoO impacto funcional real, que a tabela de letras sozinha subestima
Biometria de precisãoA potência exacta da lente intraocular a implantar
Topografia corneanaSe existe astigmatismo a corrigir e se a córnea permite lente multifocal
OCT macularSe a retina tem potencial visual para justificar uma lente premium
Pressão intraocularPresença de glaucoma associado, que altera a estratégia

O exame da mácula é o mais frequentemente omitido e um dos mais importantes. Implantar uma lente premium dispendiosa num olho cuja mácula não consegue aproveitá-la é desperdiçar dinheiro do paciente — e é evitável com um exame de cinco minutos.

E se eu esperar mais um ano?

É uma decisão legítima, desde que informada. Esperar significa:

  1. Continuar a viver com a limitação actual, que tenderá a agravar-se.
  2. Aceitar o risco acrescido de queda e fractura, que aumenta de forma mensurável com

a perda de visão em pessoas mais velhas.

  1. Chegar à cirurgia com uma catarata mais densa, tecnicamente mais exigente.

Não significa que a cirurgia deixe de ser possível ou segura. Significa que a relação entre benefício e risco se vai deteriorando lentamente, sem que se dê por isso.

Quando é que não se opera

Uma prática séria também define o contrário. Não há indicação cirúrgica quando:

  • A catarata existe mas não interfere com a vida do paciente
  • A perda de visão se explica sobretudo por outra causa — degenerescência macular,

glaucoma avançado, patologia da retina — e a cirurgia não traria ganho relevante

  • O paciente não reúne condições clínicas gerais para o procedimento nesse momento

Dizer ainda não é uma resposta clínica tão válida como marcar a cirurgia. O que não é aceitável é operar por calendário em vez de operar por indicação.

O que fazer a seguir

Se se reviu na lista de sinais acima, o passo seguinte é uma consulta de avaliação. Ela responde a três perguntas concretas: se tem catarata, quanto é que ela está a custar-lhe em funcionalidade, e qual seria o plano se decidisse avançar.

Se já tem indicação cirúrgica dada por outro médico e quer confirmá-la antes de decidir, a segunda opinião existe exactamente para isso — e é uma prática normal, não um sinal de desconfiança.

Tem dúvidas sobre o seu caso?

Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação clínica. Marque uma consulta com o Dr. André Magalhães Oliveira e discuta o seu caso concreto, com exames e com tempo.

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A informação deste artigo tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. O diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial.