Há uma conversa que acontece em todas as consultas pré-operatórias de catarata, e que costuma ser mal conduzida dos dois lados. O paciente pergunta qual é a melhor lente. E a resposta honesta é que a pergunta está mal formulada.
Não existe a melhor lente. Existe a lente certa para um olho concreto e para uma vida concreta — e a segunda parte dessa frase pesa tanto como a primeira.
O que a lente faz, e o que não faz
Na cirurgia de catarata, o cristalino opaco é removido e substituído por uma lente artificial. Essa lente não é ajustável depois de implantada: a potência é calculada antes, com base na biometria do seu olho, e mantém-se para o resto da vida.
O que muda entre famílias de lentes não é a qualidade da cirurgia nem a segurança do procedimento. É a forma como a lente distribui a luz — e, por consequência, a que distâncias vai conseguir ver sem óculos.
As quatro famílias
Monofocal
Um único ponto focal, normalmente ajustado para longe. Toda a luz que entra no olho é usada para formar essa imagem, o que dá a melhor qualidade óptica de todas as opções e praticamente nenhum halo nocturno.
O preço a pagar é conhecido: precisará de óculos para ler. É a lente mais frequentemente comparticipada e é uma escolha clinicamente excelente — não uma escolha de segunda linha.
Tórica
É uma monofocal com correcção de astigmatismo incorporada. Se tem astigmatismo corneano significativo, uma lente monofocal comum deixa-o por corrigir, e o resultado ao longe fica aquém do possível.
Exige alinhamento preciso ao eixo do astigmatismo durante a cirurgia. Bem executada, transforma o resultado em olhos que de outro modo continuariam dependentes de óculos mesmo ao longe.
Multifocal
Divide a luz recebida por dois ou mais pontos focais, permitindo ver ao longe, ao intermédio e ao perto. É a opção que mais aproxima da independência total de óculos.
A física impõe um compromisso: dividir a luz por vários focos significa que cada foco recebe menos luz, e que existem imagens desfocadas sobrepostas à imagem nítida. Daí os halos e o encandeamento nocturno, mais notórios no primeiro mês.
EDOF
Profundidade de foco alargada. Em vez de criar focos discretos, alonga um único foco contínuo. Privilegia a visão intermédia — ecrãs, painel do carro, supermercado — e gera menos halos do que as multifocais.
Em contrapartida, a visão de muito perto costuma ser inferior à de uma multifocal, e alguns pacientes mantêm óculos para letra pequena.
Comparação directa
| Monofocal | Tórica | Multifocal | EDOF | |
|---|---|---|---|---|
| Longe | Excelente | Excelente | Excelente | Excelente |
| Intermédio | Limitado | Limitado | Bom | Excelente |
| Perto | Óculos | Óculos | Bom | Moderado |
| Corrige astigmatismo | Não | Sim | Versão tórica | Versão tórica |
| Halos nocturnos | Raros | Raros | Possíveis | Pouco frequentes |
| Qualidade de contraste | Máxima | Máxima | Ligeiramente inferior | Boa |
| Comparticipação | Habitual | Parcial | Diferencial a pagar | Diferencial a pagar |
As perguntas que realmente decidem
A escolha não se faz a partir desta tabela. Faz-se a partir das respostas a estas perguntas:
- Quantas horas conduz à noite por semana? Acima de algumas horas regulares, as
multifocais tornam-se uma escolha a ponderar com cuidado.
- Quanto lê, e de que forma? Quem lê livros em papel várias horas por dia tem
necessidades diferentes de quem lê no tablet com letra ampliada.
- Trabalha ao computador? Nesse caso a visão intermédia vale mais do que a de
muito perto, o que aponta para EDOF.
- Incomoda-o usar óculos de leitura? Para muitas pessoas, simplesmente não
incomoda — e nesse caso a monofocal resolve tudo o que é preciso resolver.
- A sua retina está saudável? Se a mácula tem alterações, o potencial visual está
limitado a montante e a lente premium não conseguirá entregar o que promete.
Quando não recomendamos lentes premium
Há situações em que a resposta é claramente não, e dizê-lo faz parte do trabalho:
- Patologia macular relevante, que limita o potencial visual independentemente da lente
- Córnea irregular ou com astigmatismo elevado não corrigível
- Glaucoma avançado com perda de campo visual
- Profissões com exigência crítica de visão nocturna
- Expectativa de perfeição absoluta que nenhuma lente consegue cumprir
Recomendar uma lente cara a um olho que não a vai aproveitar não é uma questão de preferência clínica. É má prática.
O custo faz parte da conversa
Uma lente premium implica um diferencial a cargo do paciente. Esse valor deve ser apresentado por escrito, antes da decisão, com o total fechado — e a decisão de não avançar deve ser tão confortável como a de avançar.
Há uma boa cirurgia de catarata para cada orçamento. A diferença entre uma monofocal e uma multifocal não é entre uma cirurgia má e uma boa: é entre dois perfis de visão diferentes, ambos legítimos.
Para ver as opções aplicadas ao seu caso concreto, comece pela página de lentes intraoculares e depois marque uma avaliação — é a biometria que transforma esta conversa geral numa recomendação concreta.
Tem dúvidas sobre o seu caso?
Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação clínica. Marque uma consulta com o Dr. André Magalhães Oliveira e discuta o seu caso concreto, com exames e com tempo.
Marcar consultaA informação deste artigo tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. O diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial.


