Um filho que semicerra os olhos para ver o quadro na escola, que se senta cada vez mais perto da televisão ou que se queixa de dores de cabeça ao fim do dia raramente é motivo de alarme imediato para os pais. É fácil atribuir a distracção, a cansaço, a uma fase. Frequentemente, porém, é o primeiro sinal de miopia — e quanto mais cedo aparece na infância, mais atenção merece a sua evolução, não só a sua correcção.

Os sinais a que vale a pena prestar atenção

Crianças raramente dizem "não vejo bem" — adaptam-se ao que veem e assumem que é normal, porque nunca conheceram outra coisa. Os sinais indirectos são mais fiáveis do que perguntar directamente:

  • Aproximar-se muito de livros, tablets ou da televisão
  • Semicerrar os olhos para ver ao longe — o quadro, a bola num jogo
  • Sentar-se sempre nas primeiras filas na sala de aula, por preferência
  • Queixas de dor de cabeça ou de olhos ao final do dia
  • Descida no aproveitamento escolar sem outra causa aparente
  • Evitar actividades que exigem visão ao longe — desporto, por exemplo

Nenhum destes sinais, isolado, é diagnóstico. Em conjunto, e sobretudo se forem recentes, justificam uma avaliação.

Porque é que a miopia que começa cedo é diferente

A miopia resulta de o olho crescer mais do que devia em comprimento axial — a luz passa a focar antes da retina, em vez de exactamente sobre ela. Este crescimento acontece sobretudo durante a infância e a adolescência, o que faz da idade de início o factor mais determinante do prognóstico.

Uma criança diagnosticada aos 7 anos tem, estatisticamente, muito mais tempo de crescimento ocular pela frente do que uma diagnosticada aos 13 — e por isso tende a acumular uma graduação final mais alta, salvo intervenção. É esta lógica, e não uma preferência estética por óculos mais discretos, que justifica actuar cedo.

O que existe hoje para travar a progressão

Nas últimas duas décadas, a oftalmologia deixou de se limitar a corrigir a miopia infantil e passou a ter ferramentas para lhe travar o avanço:

EstratégiaComo actuaNota
Óculos com desfoco periféricoLentes desenhadas para reduzir o estímulo de crescimento na periferia da retinaUso convencional, sem desconforto acrescido
Lentes de contacto multifocais ou de ortoqueratologiaMesma lógica, aplicada em lente de contacto; a ortoqueratologia remodela a córnea durante a noiteRequer maior disciplina de higiene e seguimento
Atropina em baixa concentraçãoColírio nocturno que reduz estatisticamente a velocidade de progressãoUso off-label consoante o país; discutido caso a caso
Tempo ao ar livreDuas horas diárias de exposição a luz natural associam-se a menor incidência de miopiaMedida preventiva, não correctiva, mas com evidência sólida

Nenhuma destas opções é escolhida isoladamente da idade da criança, da velocidade de progressão já documentada e da preferência da família — é uma decisão que se revê a cada consulta, não uma escolha única e definitiva.

O que está em jogo se a progressão não for travada

Não é uma questão de conforto ou de graduação dos óculos. A Academia Americana de Oftalmologia associa a miopia elevada — tipicamente acima de -6.00 dioptrias — a um risco acrescido de descolamento da retina, glaucoma e degenerescência macular miópica na idade adulta. É um risco que se estabelece silenciosamente ao longo da infância e que só se manifesta décadas depois, o que torna fácil subestimá-lo no momento em que ainda há tempo de agir.

Quando levar o seu filho ao oftalmologista

Não é preciso esperar por sinais evidentes. Um primeiro exame visual por volta dos 3 anos, e depois no arranque da escolaridade, detecta a maioria dos casos antes de a criança se queixar de alguma coisa — porque, como referido acima, raramente se queixa. Se já há miopia diagnosticada, o seguimento regular é o que permite medir a velocidade de progressão e ajustar a estratégia a tempo, em vez de a posteriori.

O que fazer a seguir

Se reconhece algum destes sinais no seu filho, ou se já tem um diagnóstico de miopia e quer perceber se a progressão está ou não a ser travada, o passo seguinte é uma consulta de avaliação com medição do comprimento axial do olho — o dado mais objectivo para acompanhar a evolução ao longo do tempo.

Tem dúvidas sobre o seu caso?

Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação clínica. Marque uma consulta com o Dr. André Magalhães Oliveira e discuta o seu caso concreto, com exames e com tempo.

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A informação deste artigo tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. O diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial.