Em 2016, a revista Ophthalmology publicou um estudo que se tornou a referência obrigatória de toda a conversa sobre miopia. Conduzido pelo Brien Holden Vision Institute em colaboração com a Organização Mundial da Saúde, analisou dados de prevalência recolhidos ao longo de décadas e projectou-os até meados deste século.

A conclusão é a que dá título a este artigo: por volta de 2050, cerca de metade da população mundial será míope. Não é uma estimativa isolada nem uma extrapolação alarmista — é o resultado de uma revisão sistemática de larga escala, e é hoje consensualmente citada como o enquadramento do problema.

Porque é que isto não é apenas uma questão de óculos

A reacção mais comum a este número é encolher os ombros. Se metade do mundo vai precisar de óculos, e os óculos existem, onde está o problema?

O problema está na segunda metade da conclusão do estudo, que se cita muito menos: a projecção não é só de mais miopia, é de mais miopia elevada. E a miopia elevada não é uma graduação alta — é um olho estruturalmente diferente.

Num olho míope elevado, o globo ocular alonga-se. A retina que o reveste tem de acompanhar esse alongamento e fá-lo distendendo-se e adelgaçando. Daí decorre um conjunto de riscos que a correcção óptica não elimina:

  • Maior probabilidade de roturas e descolamento de retina
  • Maculopatia miópica, com perda progressiva da visão de detalhe
  • Glaucoma, porque o nervo óptico do olho míope é mais vulnerável
  • Catarata mais precoce, frequentemente já na década dos cinquenta

Estes riscos não desaparecem com óculos, com lentes de contacto, nem com cirurgia refractiva. Operar a miopia corrige o foco; não encurta o olho. Quem tinha dez dioptrias continua a ter, depois de operado, a retina de um olho de dez dioptrias.

O que mudou em duas gerações

A genética não muda em vinte anos. O que mudou foi o ambiente em que as crianças crescem, e a investigação aponta consistentemente para dois factores.

O primeiro é o tempo passado no interior. Estudos populacionais sucessivos, em várias geografias, associam menos horas ao ar livre a maior progressão da miopia. O mecanismo proposto envolve a intensidade da luz natural e a sua influência na regulação do crescimento do olho — a luz exterior é ordens de grandeza mais intensa do que qualquer iluminação interior, mesmo num dia nublado.

O segundo é o trabalho contínuo ao perto, hoje muito acentuado pelos ecrãs. Não é o ecrã em si que é o problema, mas a distância a que se usa e o número de horas seguidas sem interrupção.

O que se pode fazer, e funciona

Esta é a parte accionável, e a razão pela qual vale a pena escrever sobre o assunto. Ao contrário de há vinte anos, existem hoje estratégias com eficácia demonstrada para travar a progressão da miopia na infância e na adolescência — a janela em que o olho ainda está a crescer.

Duas horas por dia ao ar livre. É a medida mais consistentemente associada a menor progressão em estudos de intervenção, e é também a mais acessível: não custa nada, não tem efeitos secundários e beneficia a criança de várias outras formas. Se houvesse uma única coisa a retirar deste artigo, seria esta.

Colírio de atropina em baixa concentração. Aplicado à noite, sob indicação e vigilância oftalmológica, demonstrou reduzir significativamente a velocidade de progressão. É hoje uma das intervenções mais usadas em controlo da miopia infantil.

Lentes de desfocagem periférica. Lentes de óculos ou de contacto desenhadas especificamente para este fim, com um perfil óptico que actua sobre o sinal que estimula o alongamento do olho.

Ortoqueratologia. Lentes rígidas de uso nocturno que remodelam temporariamente a córnea, em casos seleccionados e com vigilância apertada.

Pausas no trabalho ao perto. Interromper regularmente, e manter a distância de leitura adequada, reduz o estímulo continuado.

Uma conta que vale a pena fazer

Cada dioptria travada na infância é risco retiniano evitado quatro décadas mais tarde. É uma das relações mais favoráveis entre esforço e benefício em toda a oftalmologia preventiva, e depende quase inteiramente de duas coisas: detectar a progressão cedo, e agir enquanto o olho ainda cresce.

Uma criança míope deve ser avaliada regularmente, não apenas para actualizar a graduação, mas para medir a velocidade a que ela muda. É essa velocidade — e não o valor absoluto num dado momento — que indica se há indicação para intervir.

Se o seu filho é míope, ou se ambos os pais o são, vale a pena marcar uma avaliação e perceber em que ponto está. A projecção para 2050 é uma estatística de saúde pública; o que acontece a cada criança concreta ainda se decide agora.

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