Muita gente ouve o diagnóstico de astigmatismo e assume que vai usar óculos para o resto da vida. Não é bem assim. O astigmatismo é, de todos os defeitos refractivos, um dos que a cirurgia moderna corrige com mais previsibilidade — desde que a causa seja a curvatura da córnea, e não uma doença corneana de base.

O que é, tecnicamente, o astigmatismo

Um olho sem astigmatismo tem uma córnea com a curvatura de uma bola de futebol: igual em todas as direcções. Um olho com astigmatismo tem uma curvatura mais parecida com a de uma bola de râguebi — mais fechada num eixo do que no outro.

O resultado é que a luz não converge num único ponto da retina, mas em duas linhas focais separadas. Isso traduz-se em visão desfocada tanto ao perto como ao longe, muitas vezes acompanhada de fadiga visual e dores de cabeça ao final do dia — sintomas que se confundem facilmente com cansaço comum e atrasam o diagnóstico.

A Academia Americana de Oftalmologia descreve-o como um dos três erros refractivos mais comuns, a par da miopia e da hipermetropia — e, tal como estes, raramente aparece sozinho: é frequente conviver com miopia ou com hipermetropia no mesmo olho.

As soluções, por ordem de permanência

SoluçãoComo corrigePermanência
ÓculosLentes cilíndricas compensam a curvatura irregularEnquanto forem usados
Lentes de contacto tóricasMesmo princípio, sem armaçãoEnquanto forem usadas
Cirurgia refractiva a laserRemodela a córnea para a tornar simétricaPermanente
Lente intraocular tóricaSubstitui o cristalino por uma lente que corrige o astigmatismo, no mesmo tempo da cirurgia de catarataPermanente

As duas primeiras compensam o problema sem o resolver — tiradas as lentes, o astigmatismo continua exactamente igual. As duas últimas alteram fisicamente a forma como o olho foca a luz.

Quem é candidato à cirurgia refractiva

Nem todos os astigmatismos são candidatos ao laser, e é aqui que a avaliação pré- -operatória faz a diferença entre um resultado previsível e uma indicação mal dada:

  • Espessura corneana suficiente. A córnea tem de ter reserva de tecido para o

remodelamento sem comprometer a sua estabilidade estrutural.

  • Topografia estável. Duas topografias com meses de intervalo confirmam que a

córnea não está a mudar de forma por conta própria — o que descartaria, por exemplo, um queratocone inicial.

  • Graduação estável há pelo menos um ano. Operar um astigmatismo ainda a

evoluir compromete o resultado a prazo.

  • Ausência de doença de superfície ocular não tratada, como olho seco severo,

que a cirurgia pode agravar temporariamente.

Quando a topografia mostra irregularidade compatível com queratocone, a cirurgia a laser está contraindicada — mas isso não significa ausência de solução; muda apenas qual é a solução certa, avaliada caso a caso.

E se o astigmatismo aparecer associado a catarata?

É a situação mais comum a partir dos 60 anos. Nesse caso, não se opera o astigmatismo em separado: a lente intraocular tórica implantada durante a cirurgia de catarata corrige as duas coisas ao mesmo tempo. É uma das razões pelas quais a escolha de lente numa cirurgia de catarata não é um detalhe menor — decide se o paciente sai da cirurgia ainda dependente de óculos para tudo, ou não.

O que esperar da recuperação

Na cirurgia a laser, a maioria das pessoas nota melhoria visual já nas primeiras 24 horas, com estabilização completa em algumas semanas. Sensação de areia nos olhos e sensibilidade à luz nos primeiros dias são esperadas, não um sinal de problema.

Um dado que a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia sublinha e que vale a pena reter: nenhuma cirurgia refractiva elimina a necessidade de óculos de perto depois dos 45 anos, por causa da presbiopia — um mecanismo à parte, que teria de ser discutido em separado na consulta.

O que fazer a seguir

Se usa óculos ou lentes há anos só por causa de astigmatismo e nunca discutiu alternativas permanentes, o ponto de partida é uma consulta de avaliação, com topografia corneana incluída. É esse exame — não a graduação dos óculos — que determina se é candidato e a que técnica.

Se já tem uma indicação cirúrgica dada noutro sítio e quer confirmá-la antes de avançar, a segunda opinião está disponível exactamente para esse fim.

Tem dúvidas sobre o seu caso?

Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação clínica. Marque uma consulta com o Dr. André Magalhães Oliveira e discuta o seu caso concreto, com exames e com tempo.

Marcar consulta

A informação deste artigo tem carácter educativo e não substitui uma consulta médica. O diagnóstico e a indicação terapêutica só podem ser estabelecidos após avaliação clínica presencial.